A ciência do humor: Por que algumas coisas são engraçadas (e outras não)
2.400 anos de teoria do humor aplicados ao seu próximo post. Como criar e analisar conteúdo engraçado.
Eu não sei você, mas eu tenho uma categoria de conteúdo que chamo carinhosamente de “vídeos de estimação” ou “vídeos de suporte emocional”. São conteúdos que eu posso ter visto há anos atrás, mas que não perdem a graça. Mais do que isso, eu acabo usando eles nas minhas conversas, faço referência a eles como parte de piadas, ou simplesmente revejo de tempos em tempos - e dou risada toda vez.
Tem vezes em que o algoritmo (que sabe mais do que ninguém que eu amo esses vídeos) me presenteia em mostrar esses vídeos de surpresa no meio de um scroll ou outro.
Aqui para fins de exemplo, alguns dos meus favoritos:
A newsletter de hoje é sobre humor. Tá, mas por quê?
Resposta curta: porque eu quis.
Resposta decente: A Oracle fez uma pesquisa com 12 mil pessoas em 14 países perguntando sobre felicidade e marcas. Os números são meio absurdos. 90% das pessoas acham que marcas poderiam fazer mais pra deixá-las felizes. 96% preferem marcas que são engraçadas. Entre a Gen Z, esse número sobe pra 97%. Além disso, 70% dos líderes de negócio têm medo de usar humor com clientes.
Agora olha:
88% das pessoas lembram mais de anúncios engraçados, mas só 14% dos anúncios offline e 16% dos online usam humor
89% comprariam mais de um vendedor engraçado, mas só 10% das marcas usam humor pra vender
83% seguiriam uma marca engraçada nas redes, mas só 9% das marcas são engraçadas no social
77% abririam um email com assunto engraçado , mas só 19% das marcas usam humor em email
80% preferem chatbots engraçados, mas só 22% das marcas colocam humor nos bots
Então entrei nesse hiperfoco: Por que a gente ri de determinadas coisas e outras não? Existe fórmula pra piada? A internet mudou nosso senso de humor? Por que algo pode ser hilário pra mim e péssimo pra outra pessoa? E, caso você queira fazer gracinha: como que faz pra ser engraçadão no on e no off?
O homem que engarrafou a risada
As três formas de teorizar sobre o humor
Corta para: um professor que decidiu resolver tudo
Violação × benignidade
O “Roll” de Seinfeld
O Score do humor: quanto seu conteúdo vai fazer rir?
Tá mas e agora?
O homem que engarrafou a risada
Bora começar em 1953. Até aquele ano, qualquer show de humor que você assistisse na sua TV seria acompanhado de reações com risadas verdadeiras, captadas ao vivo diretamente das pessoas que estavam nas plateias desses programas.
Essa era a norma até que um engenheiro de som da CBS chamado Charles Douglass teve a ideia de criar a Laff Box (caixa do riso). A invenção surgiu porque as plateias eram imprevisíveis: as pessoas riam demais, outras de menos ou na hora errada. Douglass percebeu que quando a piada recebia menos risadas do que merecia, ela parecia menos engraçada.
A Laff Box era um aparelho de madeira, com um teclado parecido com uma máquina de escrever. Por dentro, contava com 32 loops de fita com 320 risadas diferentes que variavam entre gargalhadas, risadinhas, risos masculinos, femininos, de grupo, individuais. Douglass tocava a máquina como um instrumento, inserindo as gravações nos momentos certos. O aparelho era trancado com cadeado e ninguém podia ver o interior. Por décadas, a Laff Box foi chamada de “a caixa mais cobiçada e bem-escondida do mundo”.
E funcionou bem demais. Até os anos 2000, praticamente toda sitcom americana usava as risadas de Douglass, que acabou virando um marco estético do humor na TV no período. Pode pensar aí que com certeza você vai lembrar de algum show que usa elas, de Friends à Sai de Baixo e Chapolin.
Mas aqui está o que importa pra gente: por que funcionava?
Pesquisadores da University College London descobriram que quando ouvimos alguém rindo, nosso cérebro automaticamente prepara os músculos faciais pra rir também. Um outro estudo de 2017 publicado no Journal of Neuroscience mostrou que risada social libera endorfinas no cérebro. Quando rimos junto com outras pessoas, nosso corpo nos recompensa com opioides naturais. Além disso, quando pessoas avaliam o quão engraçada uma piada é, elas classificam a mesma piada como mais engraçada se ela vier seguida de risadas. A Laff box era uma forma de hackear a neurobiologia humana.
Agora, se ela funcionava tão bem, por que as séries pararam de usar?
Resposta curta: foi por causa do The Office.
Resposta longa: Nos anos 2000, a TV americana viveu uma revolução na sua forma de produzir. Até então, as sitcoms tradicionais eram filmadas em formato multi-camera: eram três ou quatro câmeras capturando a mesma cena de ângulos diferentes, como uma peça de teatro, em um formato que funciona muito bem com plateia ao vivo. Os atores faziam pausas depois das piadas, esperando a risada passar. A estrutura inteira era construída em torno desses momentos de setup, punchline, pausa pra risada, e próxima fala.
Aí veio The Office e sucesso estratosférico que acabou setando uma nova estética para os que vieram depois, como Parks and Recreation, 30 Rock, Arrested Development, Modern Family, Community. The Office era filmado com single-camera, como um documentário. De repente, as séries mais prestigiadas da TV americana não tinham risadas.
Mas essa também é uma mudança no estilo de humor: sitcoms clássicos fazem piada com estrutura clara, é algo como “Observe essa coisa engraçada que acabou de acontecer!” Já o humor de The Office é cringe. Ele vem exatamente do desconforto e constrangimento de assistir Michael Scott dizendo algo inapropriado enquanto a câmera captura a reação dos outros atores. A graça não está mais no punchline em si, mas em sustentar o silêncio tenso que segue, e o sentimento de vergonha alheia.
Em 2021, já não tivemos mais novas sitcons com risadas gravadas estreando nas TV americanas. Wandavision e Kevin Can F**k Himself usaram o recusrso especificamente como artifício retrô. Fim da história? Mas é claro que não
O fato é que reprises de sitcoms clássicas ainda destroem nos números de streaming, e a gente ainda vê o recurso sendo usado a valer em programas de entrevista como Jimmy Kimmel e Lady Night. A ferramenta pode até ter perdido status cultural e ficado datada para os formatos de ficção, mas o público ainda assiste. Assistir programas com a laugh track segue sendo como estar com um grupo de pessoas, ela cria uma companhia artificial, e com ela, um sentimento de pertencimento. Já o silêncio do humor moderno bate diferente. É mais frio e também mais elaborado.
Agora pensa aqui comigo, se a laugh track nas sitcoms perdeu prestígio, mas a risada continua sendo contagiosa, onde foi parar essa função?
Quando você vê um vídeo no TikTok com 50 mil comentários de gente marcando amigos e escrevendo “KKKKKKKK ISSO É TÃO EU”, o que está acontecendo? Estamos, de certa forma, vendo a v2 da laff box. Diz ai pra mim quantas vezes você não entra nos comentários de um vídeo e ele acaba ficando mais engraçado?
Essas interações funcionam como risada de plateia. Eles sinalizam pro próximo espectador: “isso é engraçado, pode rir”. Quanto mais comentários, mais prova social de que o conteúdo merece atenção. Seu cérebro processa aquele contador de engajamento como se fosse uma plateia rindo.
Duetos são ainda mais poderosos. Quando alguém faz um dueto reagindo a um vídeo, eles estão performando a risada, você está ali vendo o react, e não é atoa que esse formato ficou tão popular. É sobre pertencimento, de novo.
E as piadas em cima de piadas? Cada remix adiciona uma camada de validação. Se três pessoas diferentes fizeram piada com aquele vídeo e ele vira uma “trend”, seu cérebro conclui: “definitivamente tem algo engraçado aqui”. O conteúdo original fica mais engraçado por associação. A grande diferença é que a Laff Box era controlada por um cara numa sala de edição. A risada da internet é emergente, ela surge das interações de milhões de pessoas, mas o mecanismo neurológico é o mesmo: riso, gera riso, que gera mais e mais riso.
Beleza, a gente já entendeu o efeito para potencializar algo engraçado, mas isso ainda não explica o que torna algo digno de riso em primeiro lugar. Antes de existir internet, existia Platão. E Platão já estava pensando sobre por que humanos riem. Desde então, filósofos, psicólogos, antropólogos e cientistas tentaram criar uma teoria unificada do humor. Já aviso que ninguém conseguiu, mas tem três teoriasque sobreviveram ao teste do tempo e, juntas, explicam praticamente tudo que você acha engraçado na internet.
Vamos olhar pra elas como três lentes diferentes pra entender o mesmo fenômeno.
As três formas de teorizar sobre o humor
1. Teoria da superioridade (a lente do “pelo menos não sou eu”)
Quem defendia: Platão, Aristóteles, Thomas Hobbes
A ideia: Rimos porque nos sentimos superiores a alguém ou algo.
Hobbes chamou isso de “sudden glory”, ou, a alegria súbita que sentimos ao perceber nossa vantagem sobre outros. É aquele prazer meio culpado de ver alguém tropeçar na rua.
A teoria da superioridade aplicada na internet:
• Todo o gênero “fails” (r/Whatcouldgowrong, compilações de tombo)
• Conteúdo de vergonha alheia (você ri porque “pelo menos eu não faço isso”)
• Roasts e zoeiras (r/roastme é um altar pra teoria da superioridade)
• Humor sobre ex (a superioridade de ter “superado”)
O problema dessa teoria é que ela não explica por que rimos de nós mesmos. Se humor é sobre superioridade, a autodepreciação não deveria funcionar.
O humor como marcador tribal
Você ja deve ter passado por uma situação assim de estar num grupo, alguém fazer uma piada, todo mundo rir, menos você. É isso mesmo que aconteceu: você não pegou a ref.
Nesse momento, você se sente de fora como se existisse um clube invisível do qual você não faz parte. É que piadas internas funcionam como linguagem privada. Quando você e seus amigos têm uma frase que só vocês entendem, vocês estão demarcando território social, estão dizendo: “isso é nosso. Essa memória, essa conexão, esse código pertence exclusivamente a nós.”
Pra rir junto, você precisa entender junto. Mais do que isso, a quantidade de inside jokes entre duas pessoas é um indicador direto da força da amizade. E o mesmo vale pra comunidades online: as mais coesas são aquelas com vocabulário próprio, memes de dentro, referências que funcionam como testes de pertencimento. “Se você entendeu isso, você é dos nossos.”
2. Teoria da Incongruência (a lente do “isso não era pra acontecer”)
Quem defendia: Immanuel Kant, Arthur Schopenhauer, Søren Kierkegaard
A ideia: Rimos quando algo viola nossas expectativas de forma inesperada.
Kant descreveu o humor como “a transformação súbita de uma expectativa tensa em nada”. Você monta um padrão na cabeça, a realidade quebra esse padrão, e o cérebro processa esse curto-circuito como riso.
A teoria da incongruência aplicada na internet:
• Plot twists em vídeos (aquele corte seco que muda tudo)
• Trocadilhos (a palavra significa duas coisas ao mesmo tempo)
• Humor absurdista (o padrão é justamente não ter padrão)
• Memes de subversão (você espera um formato, vem outro)
Essa é a teoria mais aceita hoje. Quase todo humor envolve algum tipo de expectativa quebrada. Mas ela também tem um problema: nem toda incongruência é engraçada. Se eu te disser, por exemplo, que descobri como fazer um foguete, isso é inesperado, mas você não vai rir. Ainda vai faltar alguma coisa, um tchãnz. Ou seja, nem tudo que é inesperado é engraçado, mas a maior parte das coisas engraçadas são inesperadas.
Os memes remixados com IA
Em junho de 2024, algo estranho começou a acontecer no TikTok. Vídeos de memes clássicos, aqueles Vines de 2013-2016 que você definitivamente já viu, estavam sendo interrompidos por figuras sombrias que apareciam do nada. A explicação era a de que viajantes do tempo estavam impedindo todos os memes de acontecer.
A ferramenta usada era o Luma AI Dream Machine, um gerador de vídeo que podia continuar qualquer imagem ou frame. As pessoas estavam pegando o último frame de memes clássicos e pedindo pra IA gerar uma continuação alternativa. O resultado era quase sempre bizarro e levemente perturbador, mas que viralizou.
Mas por que isso é engraçado? Pensa na mecânica. Você vê o começo de um meme que conhece de cor. Seu cérebro automaticamente antecipa o punchline: você sabe exatamente o que vem depois. Só que aí vem outra coisa: um final alternativo que viola completamente a expectativa que você tinha. Isso é incongruência em cima de incongruência.
O meme original já era engraçado por violar expectativas. A versão com IA viola a expectativa do meme. É meta-humor. Sua expectativa é sobre “o que eu já sei que vai acontecer porque conheço esse meme há 10 anos”. Só funciona se você conhece o original.
Se você nunca viu o meme original, a versão interrompida não faz sentido.A graça vem justamente da frustração cômica de ver algo familiar ser subvertido. A trend evoluiu. Depois dos viajantes do tempo, vieram versões onde as pessoas usavam IA pra dar novos finais aos memes, ou mudavam as respostas. Estamos vendo a internet reprocessando sua própria história, transformando nostalgia em material cômico.
3. Teoria do Alívio (a lente do “ufa, tava tenso”)
Os caras: Herbert Spencer, Sigmund Freud
A ideia: Rimos pra liberar tensão nervosa acumulada.
Freud argumentava que o humor é uma válvula de escape pro inconsciente. A gente acumula energia psíquica reprimindo pensamentos sobre sexo, morte, agressão, e o humor permite descarregar isso de forma socialmente aceitável.
Na internet, isso explica com:
• Humor negro e mórbido
• Piadas sobre temas tabu (dinheiro, sexo, morte, política)
• Memes de desabafo (”eu no trabalho”, “eu às 3 da manhã”)
• Conteúdo de catarse coletiva (todo mundo rindo junto de algo tenso)
• Por que crises geram ondas de memes
Essa teoria explica porque humor sobre assuntos pesados pode funcionar, desde que exista um contexto que torne a tensão liberável, mas também não endereça porque rimos de coisas mais banais, ou o puro nonsense, como as outras duas lentes fazem.
Corta para: um professor que decidiu resolver tudo
Em 2010, um pesquisador chamado Peter McGraw, da Universidade do Colorado, olhou pras três teorias e pensou: “e se todas estiverem certas, mas incompletas?” Junto com Caleb Warren, ele desenvolveu a Benign Violation Theory, que eu vou traduzir livremente como Teoria da Violação de Boas.
A ideia é a seguinte:
Algo é engraçado quando viola uma expectativa, norma ou padrão, mas essa violação parece simultaneamente de boas.
Bora decompor isso:
Violação = algo parece errado, ameaçador, fora do lugar, transgressor
De boas = mas ao mesmo tempo parece ok, seguro, aceitável, inofensivo
Simultaneamente = as duas percepções precisam acontecer ao mesmo tempo
Se só tem violação sem ser de boas = desconforto, nojo, medo, cancelamento
Se só é inofensivo sem violação = tédio, nada acontece
Se tem os dois ao mesmo tempo = humor
Como transformar uma violação em algo de boas
Existem três mecanismos que transformam algo ofensivo em engraçado:
1. Distância psicológica
Quanto mais longe você está de algo (no tempo, espaço, socialmente, ou em termos de realidade), mais fácil rir.
Por exemplo, se alguém cai em um vídeo, isso é engraçado. Se você cai agora, isso não é engraçado (pra você, óbvio). Agora se você lembra desse tombo daqui alguns dias, você pode ver graça na queda.
Isso explica a frase de Mel Brooks: “Tragédia é quando eu corto meu dedo. Comédia é quando você cai num bueiro e morre.” Também explica porque “too soon” existe: algumas tragédias precisam de tempo pra virar piada. A distância temporal torna a violação mais benigna.
2. Norma alternativa
A violação parece ok porque existe uma interpretação que a justifica.
Se seu amigo te der um murro na cara, isso é uma violação e ponto. Agora, se ele te dá socos de brincadeira, isso pode ser engraçado porque existe uma norma de “brincar”. Isso explica por que contexto é tudo. O mesmo conteúdo pode ser ofensivo ou hilário dependendo de quem está falando, onde, e pra quem.
3. Baixo comprometimento com a norma violada
Se você não liga muito pra regra que está sendo violada, tá tudo bem. Por exemplo, uma piada de religião contada em um grupo de ateus é engraçada, agora a mesma piada em um ambiente religioso é uma violação grave. No fim, conhecer a sua audiência é a regra 1. É bem nesse ponto que vemos tanta gente perdendo a mão, porque justamente com internet e meios de disseiminação descontrolados, fica muito fácil uma piada chegar na audiência errada. E se uma piada viola com tanta força um determinado grupo, talvez ela não devesse nem existir.
Isso também explica porque humor autodepreciativo funciona. É uma violação (você está se diminuindo) que é automaticamente benigna (você não está machucando ninguém além de você mesmo, e você deu permissão).
Autodepreciação cria conexão. Quando você ri de si mesmo, você está dizendo “eu sou humano, eu erro” e isso ressoa com todo mundo. É por isso que criadores que fazem humor sobre suas próprias falhas tendem a construir comunidades mais engajadas. A vulnerabilidade cômica cria intimidade
Violação × benignidade
O quadrante superior direito é onde mora o humor.
E aqui fica interessante pra quem cria conteúdo: você pode ajustar esses dois eixos.
Setup, punchline e timming: a mecânica da violação
Agora que entendemos o porquê, vamos pro como. A estrutura mais básica do humor é o par setup + punchline, e ela funciona exatamente nos termos da Teoria da Violação de Boas:
Setup = estabelece a expectativa (a norma que vai ser violada)
Punchline = viola a expectativa de forma que pareça inofensiva
Timming = o momento em que vai acontecer a violação
O comediante Jerry Seinfeld descreve isso como construir tensão e depois explodir ela. Pense no setup como um balão de ar que enche, o punchline estoura e o timming sobre o tempo que vamos encher esse balão:
Na internet, isso vira estrutura de vídeo:
• Hook (0-3 segundos) = setup visual ou verbal
• Desenvolvimento = construção de tensão/expectativa
• Corte/Twist = punchline
O “Roll” de Seinfeld
Jerry Seinfeld tem uma técnica que ele chama de “the roll”, que consiste em empilhar punchlines uma atrás da outra, sem dar tempo do público parar de rir.
Na internet, vemos isso em vídeos com múltiplos beats de humor, a cada transição. Também em threads que escalam até o absurdo, e carrosséis de páginas de humor onde cada foto é uma piada aglomerada sob um mesmo tema/absurdo. Cada pequena risada facilita a próxima. O público fica “solto” e mais propenso a rir do que vem depois, mesmo que não seja objetivamente mais engraçado.
O Score do humor: quanto seu conteúdo vai fazer rir?
Ok, agora bora juntar tudo: as três teorias clássicas, a Teoria da Violação de Boas, a mecânica de setup/punchline, e o efeito multiplicador social: dá pra criar um framework pra avaliar o potencial humorístico de um conteúdo.
Pensa nisso como duas dimensões:
Dimensão 1: O Potencial Intrínseco (o conteúdo em si)
(atribua uma nota para cada um dos fatores abaixo)
Violação, Tem algo que parece “errado”, inesperado ou transgressor? 0-3
Benignidade, A violação parece segura/inofensiva pra audiência? 0-3
Simultaneidade, Os dois acontecem ao mesmo tempo (não em sequência)? 0-2
Especificidade É específico (vs genérico)? 0-2
Estrutura Tem setup claro e punchline definido? 0-2
Timing O punchline chega no momento certo? 0-2
Subtotal Intrínseco: /14
Dimensão 2: O Multiplicador social (a laff box digital)
Aqui é onde Charles Douglass entra. O mesmo conteúdo pode ser 2x, 5x ou 10x mais engraçado dependendo do contexto social em que é consumido. Atribua um multiplicador pra cada um dos fatores abaixo:
Comentários visíveis, Cada “KKKKK” funciona como risada de plateia 1.1x - 1.5x
Pessoas marcada, “alguém achou engraçado o suficiente pra compartilhar” 1.2x - 1.5x
Reacts, Alguém performando a reação amplifica o contágio, 1.5x - 2.0x
Remixes, Validação criativa = “tem material aqui” 1.5x - 2.5x
Trend/Áudio viral, Contexto compartilhado aumenta benignidade, 1.3x - 2.0x
Figura conhecida reagindo, Autoridade social valida o humor, 1.5x - 3.0x
Multiplicador Social: 1.0x - 3.0x
O cálculo
SCORE FINAL = Potencial Intrínseco × Multiplicador Social
Um vídeo mediano (score 7/14) com multiplicador social alto (2.5x) performa melhor que um vídeo excelente (score 12/14) sem engajamento visível (1.0x).
7 × 2.5 = 17.5
12 × 1.0 = 12
Isso explica por que conteúdo médio às vezes viraliza enquanto conteúdo genial morre no limbo. O multiplicador social é parte fundamental da equação.
Caso isso tenha ficado incrivelmente cabeçudo, calma que eu criei uma calculadora aqui
Tá mas e agora?
Para criadores:
1. Não ignore o multiplicador social. Seu trabalho não termina quando você posta. Responder comentários, incentivar duetos, criar formatos remixáveis: tudo isso aumenta o multiplicador.
2. Os primeiros engajamentos importam demais. Eles são a “risada inicial” que sinaliza pro algoritmo e pros próximos espectadores que o conteúdo merece atenção.
3. Conteúdo que convida participação multiplica mais. Trends funcionam porque cada remix adiciona uma camada de validação social.
4. A risada dos outros é seu ativo. Screenshot de comentários engraçados, compilar reações, destacar os melhores remixes, tudo isso é a laff box moderna.
Para marcas:
Se seu conteúdo de humor não tem engajamento visível, ele está competindo sem a laff box. Considere:
• Collabs com criadores que já têm comunidades engajadas
• Formatos que convidam remix
• Semear engajamento inicial estrategicamente
Para todos:
A próxima vez que você rir de um vídeo, perceba: você está rindo do conteúdo ou está rindo porque todo mundo nos comentários está rindo? Provavelmente os dois, e tá tudo bem. Agora, você vai conseguir ser engraçado de sabendo disso?
Sinceramente, não sei, viu. Conhecer teoria não substitui prática, mas entender a mecânica te dá vocabulário pra analisar o que funciona e o que não funciona. A ideia aqui é te dar ferramentas de diagnóstico, depois de semanas hiperfocada nisso. Quando a gente aprende sobre a teoria, ganhamos espaço para sermos intencionais em vez de só ficarmos torcendo para as coisas darem certo.
A boa notícia é que, diferente do talento puro, estrutura se aprende. Timing se treina, sensibilidade pra audiência se desenvolve, e multiplicador social se cultiva. Você estuda estrutura pra internalizar, analisa o poruê da coisas serem engraçadas até que seu instinto melhore.
A má notícia é que agora você nunca mais vai ver um meme sem pensar em qual teoria do humor ele está usando, e se aqueles 47 mil comentários estão funcionando como a laff box de Charles Douglass.
De nada.
Se você gostou dessa análise, considere assinar a newsletter porque poxa vida, é DE GRAÇA MEU IRMÃO. Se não gostou, pelo menos deixa um comentário com “KKKKK sua doidinha”, vai ajudar no multiplicador social do próximo leitor.





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