Eu criei uma sala com um bando de agente de IA que ficou debatendo o futuro do amor
Um feriado de Páscoa com o notebook torando pra responder: dá pra mapear o futuro com mais do que “eu acho que...”? Mais do que isso: “robôs conseguem debater algo tão humano quanto o amor?”
Páscoa de 2026. Fui pra casa dos meus pais no interior de São Paulo, naquele tipo de feriado onde você volta a ter 12 anos por umas horas: almoço às 11h30, televisão ligada sem ninguém assistindo, cochilo no meio da tarde e coisa e tal.
Isso até que, entre um fazer de nada e comer deliciosidades que minha mãe preparava na cozinha, resolvi olhar pro *abismo de projetos paralelos que estão parados por falta de tempo*. Fazia algumas semanas que eu vinha explorando ferramentas de agentes de IA, tentando entender o que dá pra fazer quando você bota vários modelos pra conversar entre si em vez de ficar no ping-pong clássico humano-IA. No meio disso, caí num projeto bem esquisitinho e curioso.
O peixe multiplicador vidente
O projeto se chama MiroFish, e a história dele sozinha já renderia um post inteiro (e vai render nas próximas edições, tá na fila).
MiroFish é um motor de inteligência de enxame. Você joga um material qualquer no sistema (pode ser uma notícia, relatório financeiro, proposta de política pública, até um romance, qualquer coisa mesmo) e ele constrói um mundo digital paralelo, populado por milhares de agentes de IA autônomos. Cada agente tem personalidade própria, memória de longo prazo, conexões sociais e lógica comportamental independente. Aí o sistema solta esses agentes numa simulação e eles começam a interagir entre si.
Isso mesmo, eles começam a viver a vidinha deles, com amizades, tretas, convencimento. É tipo um BBB misturado com SimCity, só que multiplicado por milhões. E aí você fica lá acompanhando cada comportamento emergente e essa multidão simulada reagindo.
Se você tá achando isso absurdo, calma que fica mais. A origem do peixinho vem de Guo Hangjiang, um universitário chinês que construiu o produto em 10 dias. Daí que ele gravou um vídeo demo e mandou pro Chen Tianqiao, fundador da Shanda Group (um dos homens mais ricos da China). Em 24 horas, Chen investiu 30 milhões de yuans no projeto. Simplesmente que o MiroFish chegou ao #1 do trending global do GitHub, acumulando mais de 40 mil stars.
O projeto ainda não está de todo maduro. Está na versão 0.1, tem limitações reais (tipo potencial custo de API estratosférico, viés de manada dos LLMs), e ninguém publicou benchmarks comparando as previsões com resultados reais. Mas o conceito é, no minimo, interessante. Ao invés de perguntar “o que os dados históricos dizem?”, a ferramenta projeta “o que milhares de pessoas simuladas fariam diante dessa situação?”.
Um pouco antes do feriado, eu passei dois dias experimentando a ferramenta, e confesso que meu computador quase derreteu nessas. Tenho muito mais a dizer sobre, mas preciso de um tempo pra organizar o que funcionou e o que foi uma loucura total, mas isso fica pra um próximo post, porque o que importa aqui é a ideia que esse experimento plantou na minha cabeça.
A pergunta que não me largou
Se um sistema pode simular milhares de agentes com opiniões diferentes debatendo um tema, e se o resultado pode revelar padrões que nenhum dos agentes sozinho enxergaria... e se eu pegasse esse princípio, mas em vez de personagens genéricos, usasse agentes que representassem lentes reais de estudos de futuro?
Porque, olha, tem muita gente falando de futuro. De um lado, consultorias trazem suas metodologias e workshops de cenários; Daí tem as rquipes internas das empresas, que fazem brainstorms que repetem os vieses do grupo. E não dá pra não mencionar nossa diva IA que, se você só pedir abertamente por cenários, ela vai sempre dar a versão pessimista, otimista e neutra (e nos 3 casos vão ser bem rasos).
O futuro é complexo e não é só um. Não à toa existe todo um ramo dedicado a pensar nele, e muitas escolas e teorias. E a real é que você precisa de lentes diferentes pra enxergar os que importam.
Então tá. Nessas eu construí o que chamei de Conselho de Futuristas.
O work in progress
A ideia até que é simples, mas botar de pé inclui bastante trabalho envolvido.
Eu começo com uma cartografia: uma descrição rica do estado atual de um tema. Pode ser o mercado de música no Brasil, ou a educação, ou, como foi o caso, o amor. A cartografia precisa ter fatos, tensões, dados e tendências. Quanto mais detalhada, melhor. Honestamente, é aqui que a coisa leva mais tempo, e eu tenho um sistema próprio pra conduzir esse material, mas vou falar disso mais no detalhe no próximo capítulo.
Beleza. Material feito, o próximo passo é lançar 10 agentes de IA em paralelo, cada um com as restrições metodológicas rígidas de uma escola diferente de futures studies. E aqui vale a pena explicar cada um com calma, porque o poder do sistema está na diversidade das lentes, e cada escola enxerga um pedaço que as outras não veem. Os agentes foram todos construídos no Claude Code, e abastecidos com literatura das suas respectivas metodologias (fiz um notebooklm para cada um deles, e o material virou a base de memória de cada agente)
1. O cenarista Shell usa a metodologia de planejamento por cenários, criada na Shell nos anos 1970 (sim, a petroleira, ela mesmo). A lógica é que você identifica as duas incertezas mais críticas de um território e cruza elas numa matriz 2x2. Cada quadrante gera um cenário. São quatro mundos diferentes, todos plausíveis e desconfortáveis de maneiras distintas. A Shell usou isso pra antecipar crises de petróleo quando o resto da indústria achava que tudo ia ficar estável pra sempre.
2. O Datoriano aplica os Quatro Futuros Arquetípicos de Jim Dator, pesquisador do Hawaii Research Center for Futures Studies. A tese dele é que toda visão de futuro, de qualquer cultura e qualquer época, cabe numa de quatro caixas. Continuidade (as coisas seguem como estão, só que mais). Colapso (algo quebra e o sistema desmorona). Disciplina (uma força externa impõe ordem, seja governo, religião ou natureza). Transformação (surge algo tão novo que redefine as regras do jogo).
3. O Analista CLA trabalha com Causal Layered Analysis, do futurista paquistanês Sohail Inayatullah. Essa é a escola que escava mais fundo e opera em quatro camadas: a litania (o que aparece na manchete), as causas sistêmicas (as estruturas que produzem a manchete), a visão de mundo (os pressupostos culturais que sustentam as estruturas) e o mito (a metáfora inconsciente que organiza tudo). O CLA vai até o mito e propõe que mudar o futuro começa por mudar a metáfora. É a escola mais filosófica do grupo.
4. A Prospectivista vem da tradição francesa de La Prospective, criada por Michel Godet. Se o CLA é a mais filosófica, a Prospectivista é a mais política. Ela faz análise estrutural (MICMAC: quais variáveis mais influenciam o sistema?) e jogo de atores (MACTOR: quem tem poder, quem quer o quê, quem pode bloquear quem?). Depois constrói cenários morfológicos combinando os estados possíveis de cada variável. É a escola que mais leva a sério as relações de poder e os conflitos de interesse entre atores.
5. O Decolonial vem dos Estudos de Futuros Decoloniais, influenciado por pensadores como Arturo Escobar, Boaventura de Sousa Santos e o conceito de Buen Vivir. Essa escola existe pra fazer a pergunta que as outras não fazem: “de quem é esse futuro?”. Ela questiona se os pressupostos das análises (individualismo, progresso linear, racionalidade econômica) são universais ou apenas a visão de mundo de uma elite ocidental projetada sobre todo mundo. No contexto brasileiro, essa lente é particularmente potente porque ilumina saberes e formas de vida que as outras escolas tratam como invisíveis.
6. O Complexista trabalha com Teoria da Complexidade, na tradição do Santa Fe Institute. Aqui o mundo deixa de ser um sistema previsível e passa a ser um sistema adaptativo. O Complexista mapeia loops de feedback (ciclos que se auto-reforçam ou se auto-corrigem), identifica tipping points (limiares onde uma mudança pequena gera cascata) e trabalha com cenários emergentes e não-lineares. É a escola que melhor explica por que previsões lineares falham: porque o mundo tem propriedades emergentes que não existem nas partes isoladas.
7. O Designer Especulativo vem do Design Fiction, na tradição de Anthony Dunne e Fiona Raby. Em vez de descrever um futuro em texto, ele cria artefatos ficcionais que implicam um mundo: um produto, uma lei, um app, um manual de instruções, uma certidão. A ideia é que um artefato tangível gera mais debate do que uma descrição abstrata. Quando você segura uma “Certidão de Vínculo Afetivo Não-Conjugal” nas mãos, você não está lendo sobre um futuro. Você está confrontando ele.
8. O Backcaster usa Backcasting, na tradição do Natural Step (Karl-Henrik Robèrt). Enquanto todos os outros partem do presente e tentam chegar ao futuro, o Backcaster faz o caminho inverso. Ele define primeiro o futuro desejável e depois trabalha de trás pra frente, identificando as decisões do presente que tornam esse futuro mais ou menos provável. É a escola mais orientada a ação, porque a pergunta não é “o que vai acontecer?” e sim “o que precisamos decidir hoje?”
9. O Scanner de Horizonte trabalha com Horizon Scanning, a disciplina de detecção de sinais fracos e wildcards. Sinal fraco é um fenômeno periférico, pequeno, fácil de ignorar, que pode ser o embrião de uma mudança estrutural. Wildcard é um evento de baixa probabilidade e alto impacto. Enquanto as outras metodologias trabalham com o que já é visível, o Scanner procura o que ainda é quase invisível. É a escola mais paranoica do grupo (no melhor sentido: a paranoia produtiva de quem sabe que as maiores mudanças começam nas margens).
10. O Três Horizontes usa o framework de Three Horizons, de Bill Sharpe e do International Futures Forum. Ele mapeia três camadas temporais simultâneas: o H1 (o sistema dominante, que funciona mas está perdendo relevância), o H3 (o paradigma emergente, que existe em sementes mas ainda não é mainstream) e o H2 (a zona de transição entre os dois, onde coisas se quebram e se recombinam). A beleza desse framework é que ele não trata o futuro como substituição de um modelo por outro, mas como coexistência tensa de temporalidades.
Wow. Ok.
Depois, um 11º agente (o Conselho) recebe todos os outputs, consolida os cenários parecidos, identifica divergências, classifica tudo no cone de plausibilidade (possível → plausível → provável → preferível) e elege os 3 a 5 futuros mais robustos. Robustez aqui tem critério: um cenário é robusto quando agentes diferentes, com metodologias independentes, chegam nele por caminhos completamente separados. Quando a Shell, o Dator e o Três Horizontes convergem num cenário, cada um pela sua lógica... isso é sinal, não coincidência.
E quando só o Decolonial ou só o Scanner de Horizonte vê algo que ninguém mais viu, isso é um ponto cego, e frequentemente é o cenário mais valioso do mapa.
A cartografia como input (ou: lixo entra, lixo sai, isso não mudou)
O output de um sistema inteligente é proporcional à qualidade do input. Sempre foi assim, com ou sem IA. Eu resolvi testar o sistema com algo que me interessava pessoalmente e que eu sabia que geraria material rico: o futuro do amor, dos relacionamentos e dos vínculos afetivos no Brasil.
Então, antes de jogar qualquer coisa pros futuristas, eu rodei uma cartografia cultural completa do território. Isso quer dizer botar a mão na massa pra fazer uma análise densa, com dados, tensões, e principalmente e mais do que tudo: fontes verificadas.
O material inclui coisas como: o Brasil liderou o ranking global de solidão em 2021 (muito por conta da pandemia), ao mesmo tempo em que 75% das pessoas dizem se sentir amadas em 2025. A distância entre essas duas declarações é, sozinha, um dado mais revelador do que qualquer pesquisa de opinião.
A cartografia identificou forças quentes (o colapso demográfico brasileiro, com nascimentos caindo 5,8% em 2024, o sexto recuo consecutivo), forças mornas (a solidão estrutural, os domicílios unipessoais triplicando em duas décadas), sinais (a terapeutização do vocabulário amoroso, a fadiga dos apps de namoro, a assertividade feminina como filtro de relacionamento) e tensões entre o que as pessoas dizem querer e o que efetivamente fazem. Aqui é bem divertido porque o ser humano tem essa capacidade linda de ser incoerente, e com frequencia a gente fala que quer uma coisa enquanto os dados mostram que fazemos outras. Enfim, aqui tem a cartografia completa pra você dar uma olhada, caso tenha ficado curioso.
Esse material é o alicerce. Sem ele, os futuristas não têm matéria-prima. Agora fato que é, no mínimo irônico botar robôs para discutirem o futuro do amor, né? Tempos doidos pra se viver.
Os futuros do amor (o que 10 lentes viram)
No caso do futuro do amor, tive 25 cenários distintos que o Conselho consolidou em 5 futuros eleitos e 4 futuros divergentes. Separei aqui os highlights porque o mapa completo tem umas 10 mil palavras (eu avisei que era meio insano).
Futuro 1: O Arquipélago Afetivo
Seis agentes convergiram neste cenário. A ideia aqui é que o amor romântico de casal perde a posição de organizador único da vida afetiva. No lugar dele, surge uma ecologia fragmentada de vínculos como amizades com pactos de cuidado, coabitação não-conjugal, parentalidades compartilhadas entre não-casais, parceiros de envelhecimento, redes intencionais de 8 a 20 pessoas. O casal continua existindo, mas vira uma ilha num arquipélago maior.
A inovação afetiva chega primeiro pra quem já tem mais capital cultural e econômico. Dois Brasis afetivos passam a coexististir: temos a desigualdade afetiva como espelho da desigualdade econômica.
O artefato ficcional que o Designer Especulativo criou pra esse futuro: uma Certidão de Vínculo Afetivo Não-Conjugal, documento que formaliza vínculos primários entre pessoas não romanticamente ligadas, com efeitos jurídicos reais.
Futuro 2: A Clínica Infinita
Também com convergência de seis agentes (e esse nós já conseguimos ver em curso atualmente). Aqui, a terapeutização do amor completa sua colonização do desejo. Relacionamentos começam como contratos de saúde mental mútuos e se dissolvem quando o vocabulário clínico oferece justificativa suficiente pra saída. O mercado de wellness amoroso explode.
Uma pergunta que o Complexista fez: estamos construindo pessoas mais capazes de amar ou mais sofisticadas em se proteger do amor?
Porque a satisfação medida até aumenta nesse cenário. As pessoas sabem nomear o que sentem, mas a volatilidade positiva, o risco, a surpresa, a desorientação que constitui o encontro real, tudo isso é removido. O mito dominante é o do “Eu Inteiro que Não Precisa”, ou seja, um indivíduo soberano que, ao ser “curado” o suficiente, torna-se autossuficiente. Aqui, o medo central deixa de ser a solidão e passa a ser a dissolução do eu que o amor real exige.
Futuro 3: A Fogueira e o Protocolo
Cinco agentes viram esse cenário, que é o mais desconfortável. Nele, temos um futuro bem complicado para relações heterossexuais, com mulheres de vocabulário emocional sofisticado e homens em vazio identitário desenvolvendo gramáticas de sofrimento ininteligíveis. O amor vira um tipo de campo de batalha cultural: a direita mobiliza homens isolados, a esquerda mobiliza mulheres insatisfeitas. Temos dois mercados afetivos paralelos e incomunicáveis, que ainda tentam se encontrar num campo de tensão.
Futuro 4: O Retorno dos Terreiros
Esse foi uma das maiores surpresas pra mim. Cinco agentes, incluindo a Decolonial e a CLA, convergiram num cenário onde comunidades negras, periféricas e indígenas que nunca abandonaram formas coletivas de cuidado e se tornam referência para a reinvenção vincular. Nas periferias de SP, Salvador e Belém, arranjos habitacionais herdeiros do cortiço, do quilombo e da casa de terreiro, tornam-se modelos. Cuidar da criança da vizinha é amor e a família é o grupo que pratica cuidado recíproco ao longo do tempo.
Futuro 5: A Grande Dessincronização
Quatro agentes viram esse cenário, que tem um componente de wildcard. Um evento catalisador (vazamento de dados íntimos, escândalo de IA manipuladora, acúmulo de fadiga) colapsa a confiança nos apps de dating. No vazio que se abre, algo novo começa. Voltamos a valorizar encontros imperfeitos. “Não estar pronto” vira condição de possibilidade do encontro e a desorientação volta a ser desejada.
“Me deixou desestabilizado” volta a ser frase de admiração, não de red flag.
O aprofundamento
Depois do mapa inicial, eu pedi pro sistema ir mais fundo nos futuros eleitos. Os 10 agentes rodaram de novo, agora focados só nos 5 cenários escolhidos, tentando enxergar consequências que a primeira rodada não alcançou.
Os cinco futuros não são caminhos separados. A verdade é que um alimenta o outro: A Clínica Infinita, por exemplo, cria uma geração inteira fluente em vocabulário terapêutico e hipersensível a conflito. Essa mesma geração é a matéria-prima da Fogueira: homens e mulheres que sabem nomear a dor, mas usam essa fluência pra se trincheirar em lados opostos.
Um futuro vai produzindo o combustível do outro.
Já o Retorno dos Terreiros opera em outra lógica. Enquanto os outros futuros discutem formas de amor dentro da mesma moldura, os Terreiros propõem outra coisa: é o vínculo como algo que já existe antes de você escolher, que vem da comunidade e do cuidado coletivo. É a única saída que não tenta resolver o problema nos termos do próprio problema.
O Complexista encontrou um ciclo vicioso escondido dentro da Clínica Infinita que me gelou: quanto mais vocabulário terapêutico circula na cultura, mais tipos de sofrimento se tornam nomeáveis. Mais sofrimento nomeável gera mais demanda por terapia. Mais terapia gera mais vocabulário. O sistema nunca para de crescer porque ele mesmo cria a dor que se propõe a tratar.
E a análise de atores revelou um dado que eu não esperava: mulheres negras periféricas aparecem como as mais vulneráveis no cenário da Fogueira (onde a polarização de gênero é mais violenta) e, ao mesmo tempo, como as mais protagonistas no cenário dos Terreiros (onde as formas coletivas de cuidado já existem e funcionam). Elas ocupam os dois extremos do mapa. Se existe um ponto onde uma ação no presente muda o futuro inteiro, é ali.
O que eu aprendi fazendo isso
Três coisas me ficaram.
A primeira: a triangulação entre metodologias é mais poderosa do que qualquer metodologia isolada. Quando a Shell, o Dator e o Três Horizontes chegam no mesmo cenário por caminhos diferentes, você está diante de algo que merece atenção séria. E quando só o Decolonial vê algo que todas as outras lentes ignoraram, essa divergência vale mais do que todas as convergências juntas, porque é exatamente ali que mora o ponto cego coletivo.
A segunda: o input importa tanto quanto o sistema. Se eu tivesse jogado uma cartografia rasa, os cenários seriam genéricos. A cartografia com dados reais, tensões mapeadas, fontes verificadas é o que permitiu que cada escola tivesse substância pra trabalhar. Lixo entra, lixo sai. Isso nunca muda. Com ou sem IA.
A terceira é que todas as dez escolas, sem exceção, partiram do pressuposto de que o amor é necessário. Nenhuma explorou a hipótese de que uma civilização possa funcionar sem ele.
Vou falar uma coisa que pode decepcionar, mas enfim, nenhum desses 10 agentes sabe o que vai acontecer de verdade. Eu também não, ninguém sabe.
Futures studies é um campo existe desde os anos 1940 e a premissa fundadora é justamente o oposto da vidêmcia: o futuro é incognoscível, mas os futuros possíveis são mapeáveis. E mapear possibilidades antes de decidir é melhor do que fingir que só existe um caminho.
O que um exercício como esse faz é te obrigar a largar o futuro que você carrega como se fosse verdade sem nunca ter examinado ele. Aquele cenário que mora na sua cabeça como “o que vai acontecer” e que na real é só o futuro mais confortável pra quem você é agora. Futures studies coloca esse cenário na mesa junto com outros quatro e te pergunta se suas decisões de hoje sobrevivem nesses vários mundos possíveis.
Eu não sei qual futuro do amor vem, mas sei que estou tomando decisões melhores depois de ter olhado pra cinco ao mesmo tempo. E sei que as perguntas que eu estava evitando eram exatamente as que mais precisavam de resposta.
Quando dizemos que queremos amor, o que exatamente estamos pedindo? E a quem estamos pedindo? Porque a resposta a essa pergunta determina se estamos buscando um encontro com o outro ou só a manutenção do eu.






Primeira vez na sua newsletter e estou embasbacado do tanto de conteúdo valioso que está por aqui. Meus parabéns, Dindi! A tempos não lia um texto tão bom quanto esse!
O texto mais interessante de todo o Substack é sempre o seu próximo. Um privilégio poder habitar seu cérebro um pouquinho por aqui. Sempre aprendo tanto: sobre metodologias robustas, sobre IA, sobre áreas distantes da minha... Obrigada!