Janeiro nem existe
A Kodak teve 13 meses por 61 anos. A União Soviética aboliu o domingo. A França guilhotinou quem redesenhou o calendário. E o Brasil tem um sistema próprio para contar o tempo que você nunca viu.
Virei a noite do dia primeiro de janeiro acreditando que tudo tinha recomeçado. Abracei pessoas queridas, pulei as 7 ondas, desejei feliz ano novo pra desconhecidos, mandei mensagem de WhatsApp pra deus e o mundo, e vi o amanhecer mais feliz e leve. Obrigada, ano novo, você é tudo.
É verdade que janeiro não marca nenhuma novidade astronômica. Não tem solstício nem equinócio. Também não tem nenhuma lua especial, embora a desse ano estivesse crescente e deslumbrante, 85% visível, gigante, mas isso muda de ano pra ano e não tem nada a ver com a virada em si. O negócio é puramente emocional.
E sendo assim, eu adoro ano novo. Esse combinado coletivo de começar do zero me pega toda vez. Repare: em janeiro as pessoas estão mais gentis. Até o carnaval elas sorriem mais, falam mais calmas. Que bom.
Como parte das minhas resoluções, em 2026, decidi que quero comemorar meu aniversário em novembro porque faz mais calor. Pra mim, parece justo que cada pessoa possa só pegar uma data por ano pra chamar de aniversário e pronto, embora a maioria ache isso meio absurdo.
Mas o importante é que ele aconteça em algum momento para marcar um ciclo, seja lá quando for.
Com o aniversário da Terra poderia ser a mesma coisa. Eu não sou apegada ao 1 de janeiro, mas sou ao ano novo e ao reset coletivo que ele carrega. Sei lá, por mim se a gente sentir que o ano precisa resetar de novo daqui 8 meses, estou dentro.
O ano poderia começar em março (como foi durante a maior parte da história romana), em setembro (como é na Etiópia até hoje), ou na segunda lua nova depois do solstício de inverno (como é na China daqui a algumas semanas). Janeiro é só uma das opções.
O calendário é só um grande combinado que coordena quando a gente trabalha, descansa, a melhor época pra casar, a melhor para fazer festas de formatura, os prazos para fechar os relatórios financeiros das empresas. Como toda tecnologia, foi inventado por humanos e tem suas gambiarras e muita brecha pra ser diferente. A parte interessante é que toda vez que alguém tenta mudar essa tecnologia, o mundo surta.
Então nada mais justo do que começar esse belo ano de 2026 aprofundando nos acordos sobre o tempo. E podem ficar tranquilos porque aqui o negócio vai ser bem mais maluco do que horário de verão.
1. A fábrica onde o tempo funcionou diferente por 61 anos
2. Quando a União Soviética aboliu o domingo
3. O calendário que matou seus criadores
4. O dia em branco que parou a reforma de calendário na ONU
5. Uma nação que vive sete anos no passado
6. O caminho dos céus e tempo brasileiro
7. Os dois anos novos que estruturam a vida chinesa
8. Feliz ano novo
1. A fábrica onde o tempo funcionou diferente por 61 anos
Uma coisa que eu adoro no ser humano é que para toda coisa meio idiota que a gente pensa, alguém já foi lá e pensou parecido e levou às últimas consequências. Então quando eu comecei a pirar nessa ideia de nova data para o ano novo e aniversários, fui dar uma pesquisada em quem deixou os pensamentos intrusivos vencerem. Pois bem: Em 1928, George Eastman botou a Kodak inteira pra rodar seguindo um calendário de 13 meses.
Todo funcionário passou a carregar um cartãozinho de conversão no bolso. Pôsteres gigantes nas salas de reunião mostravam “Período 1” até “Período 13”. Até 1989, milhares de trabalhadores viveram em dualidade temporal, convertendo entre o tempo Kodak e o mundo exterior.
Essa proposta era chamada de International Fixed Calendar, e dividia o ano em 13 meses idênticos de 28 dias. Todo mês começava no domingo e terminava no sábado. O dia 17 era sempre terça, sexta-feira 13 aparecia em todos os meses. O mês extra, chamado “Sol”, ficava entre junho e julho. Algo fofo é que sobrava um único dia do ano órfão, que flutuava fora do cliclo semanal ali no fim de dezembro.
O inventor do sistema era Moses Cotsworth, um contador inglês autodidata de ferrovias que ficou obcecado com reforma de calendário depois de perceber que não conseguia comparar estatísticas mensais com precisão, já que alguns meses tinham 30 dias, outros 31, alguns incluíam quatro finais de semana, outros cinco. Uma semana podia atravessar dois meses diferentes ou até dois anos? Ele resolveu o problema e depois passou anos promovendo sua solução com zelo missionário.
Cotsworth viajou para mais de 60 países, imprimiu 60.000 panfletos, hipotecou a casa, e em certo momento sobreviveu de pão, queijo e leite aguado num hotel de Nova York enquanto fazia lobby com industriais americanos. A excentricidade dele incluía acreditar que as pirâmides egípcias eram relógios de sol gigantes para marcar o calendário. Ele foi até Gizé medir. Seu livro de 1905, The Rational Almanac, tinha numeração de páginas irregular e incluía uma foto dele no final para que estranhos pudessem reconhecê-lo na rua e puxar conversa sobre reforma de calendário.
A Kodak abandonou o sistema só porque uma hora ficou confuso demais. Fornecedores externos usavam o calendário gregoriano. Além disso, um calendário de 13 meses não divide em trimestres, que é a base dos relatórios financeiros modernos.
2. Quando a União Soviética deletou o domingo
Em 29 de setembro de 1929, a União Soviética teve seu último domingo por onze anos.
A nepreryvka (semana de trabalho contínua) era o esquema do economista bolchevique Yuri Larin para aumentar a produção industrial mantendo as fábricas funcionando todos os dias. Para isso, a força de trabalho foi dividida em cinco grupos, cada um com um dia de descanso diferente. Trabalhadores recebiam papéis coloridos, e eram instruídos: “Só lembre sua cor e sempre saberá seu dia de folga.”
Miraram na eficiência e acertaram a desintegração social.
Cartas publicadas no Pravda no dia em que a reforma começou capturaram o choque humano: “O que há pra fazer em casa se nossas esposas estão na fábrica, nossos filhos na escola, e ninguém pode nos visitar? Que tipo de vida é essa se descansamos em turnos e não juntos como um proletariado inteiro?”, “Como vamos trabalhar agora, se a mãe folga num dia, o pai em outro, o irmão num terceiro, e eu mesmo num quarto?”
As pessoas começaram a marcar amigos com cores nos cadernos de endereço de acordo com qual dia cada um tinha de folga. A reforma dividiu a sociedade em populações paralelas vivendo cinco ritmos diferentes.
O historiador Ivan Ivanovich Shitz escreveu que a função primária do sistema “parecia gerar uma ilusão de cultura de trabalho intenso.” O sociólogo Eviatar Zerubavel notou que a simetria temporal “que seu cronograma e meu cronograma estejam sincronizados” é a cola que mantém a sociedade unida.
Em 1930, quase 75% dos trabalhadores soviéticos já estavam seguindo esses cronogramas contínuos, mas o resultado foi o oposto do planejado.
As máquinas começaram a quebrar em ritmo alarmante. Quando cinco equipes diferentes operam o mesmo equipamento em rotação, ninguém conhece a máquina de verdade, ou percebe o barulho estranho, o parafuso frouxo, o sinal de desgaste. E como a fábrica nunca parava, também não havia janela para manutenção preventiva. A produtividade despencou.
Enquanto isso, as famílias resistiam como podiam. Apesar dos dias de folga desencontrados, as pessoas davam um jeito de se encontrar.
A nepreryvka foi substituída em 1931 por uma semana de seis dias com dia de descanso comum, embora os dias de descanso caíssem em datas numeradas arbitrárias (6, 12, 18, 24 e 30 de cada mês). Nomes tradicionais dos dias da semana foram substituídos por números ordinais.
Quando a semana de sete dias finalmente voltou em 26 de junho de 1940, em uma quarta-feira, os domingos retornaram como dias de descanso. Mas vieram com uma pegadinha: largar o emprego, faltar um dia de trabalho, ou se atrasar mais de 20 minutos se tornaram ofensas criminais com sentenças obrigatórias de prisão.
Tem um dado curioso sobre a Rússia contemporânea: a maioria dos russos se declara religiosa, mas muito menos gente frequenta a igreja do que na Europa Ocidental. É como se a fé tivesse se tornado algo privado, desconectado do ritual coletivo do domingo.
Alguns pesquisadores especulam que isso pode ser ressaca dos onze anos sem fim de semana. Uma geração inteira cresceu sem o hábito de reservar o domingo para a igreja. Quando o domingo voltou a existir, a prática já tinha se perdido.
3. O calendário que matou seus criadores
A Revolução Francesa queria resetar a civilização inteira.
Em 1793, a Convenção Nacional encomendou um novo calendário. O argumento era de que o calendário gregoriano era uma ferramenta do Papa, cheio de santos católicos e organizado em torno de datas cristãs. Se a França estava rompendo com a Igreja, era necessário também não andar no mesmo tempo da igreja.
O novo sistema era uma guerra temporal contra o cristianismo. A semana passou a ter dez dias, o que significava que trabalhadores descansavam um dia em dez. Cada um dos 360 dias regulares ganhou nome de planta, animal ou ferramenta agrícola, substituindo os santos. Os meses foram rebatizados com nomes poéticos baseados nas estações: Vendémiaire (vindima), Brumaire (névoa), Thermidor (calor). O ano começava no equinócio de outono, celebrando a natureza em vez de Cristo.
Matematicamente elegante, mas humanamente contestável.
O povo odiou. Antes, parisienses tinham 90 feriados por ano contando domingos e festas religiosas. O novo calendário cortou isso pela metade. Um observador da época registrou: “Domingos e feriados católicos continuam sendo celebrados com pompa e esplendor. O mesmo não pode ser dito do décadi, observado apenas por um punhado de cidadãos. As primeiras a desobedecer a lei são as esposas de funcionários públicos.”
Tinha outros problemas. O Ano Novo dependia do equinócio real, então astrônomos precisavam calcular quando cada ano começava, complicado quando o equinócio caía perto da meia-noite. Sem falar que os nomes dos meses descreviam o clima do norte da França, nomenclatura que era inútil para as colônias no Caribe ou na África.
O calendário durou 12 anos. Napoleão aboliu em 1º de janeiro de 1806, já que ele queria conectar seu Império à história francesa pré-revolucionária, de volta a Carlos Magno.
Mas os nomes ficaram. Até hoje, historiadores falam em “9 Thermidor” (a queda de Robespierre) e “18 Brumaire” (o golpe de Napoleão). O calendário morreu, mas virou vocabulário. Karl Marx usou uma dessas datas como título do seu ensaio mais famoso: “O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte” abre com “A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa.”
E os dois homens que criaram esse calendário?
Philippe Fabre d’Églantine, o dramaturgo que inventou os nomes poéticos dos meses, foi guilhotinado em abril de 1794.
Charles-Gilbert Romme, o matemático que desenhou a estrutura do sistema, foi condenado à morte em junho de 1795 por apoiar uma revolta popular. Em vez de enfrentar a guilhotina, ele e outros réus se esfaquearam no próprio tribunal.
A Revolução devorou seus filhos, inclusive os que tentaram reorganizar o próprio tempo.
(Setenta e nove anos depois, a Comuna de Paris tentou ressuscitar o calendário por 18 dias em maio de 1871. Os communards nem chegaram a ver um segundo fim de semana do novo sistema antes de serem massacrados.)
4. O dia em branco que parou a reforma de calendário na ONU
Lembra do calendário de 13 meses da Kodak? Ele quase virou padrão mundial.
Em outubro de 1931, a ONU selecionou o International Fixed Calendar (o mesmo sistema que George Eastman tinha implementado na Kodak três anos antes) como a melhor proposta entre 130 candidatas para uma reforma universal. Eastman recrutou General Motors, Fox Studios, Metropolitan Life Insurance e dezenas de outras corporações. Moses Cotsworth, o contador inglês obcecado que tinha inventado o sistema (e hipotecado a casa para promovê-lo), finalmente parecia perto de realizar seu sonho.
Então o Rabino Joseph Herman Hertz, Rabino-Chefe da Commonwealth Britânica, organizou uma campanha de oposição global que enterrou tudo.
O problema era o “dia em branco.”
Para que qualquer calendário fixo funcione, seja o de 13 meses de Cotsworth ou o World Calendar de 12 meses proposto depois, é preciso ter pelo menos um dia por ano que fica fora do ciclo semanal. No sistema Kodak, o “Dia do Ano” vinha depois de 28 de dezembro e não era nem domingo nem segunda, ele simplesmente não tinha dia da semana. Anos bissextos ganhavam um segundo dia assim.
Para judeus ortodoxos e adventistas do sétimo dia, isso era catastrófico. A semana de sete dias, argumentavam, continuava ininterrupta desde a Criação. Se você enfia um dia “em branco” no meio, o Shabat de semana que vem não é mais o sétimo dia real, é o oitavo. O verdadeiro sábado sagrado começaria a vagar pelo calendário, e observá-lo se tornaria impossível.
A reforma morreu ali.
Vinte e quatro anos depois, uma rica nova-iorquina chamada Elisabeth Achelis tentou de novo. Ela tinha dedicado 43 anos de vida e boa parte de sua fortuna ao World Calendar. Uma proposta diferente, de 12 meses, mas com o mesmo problema do dia em branco. Levou o projeto às Nações Unidas em 1955. Os Estados Unidos vetaram, exigindo que uma maioria dos cidadãos americano aprovasse a mudança primeiro.
Achelis dissolveu a World Calendar Association em 1956. Seus arquivos completos estão aqui:
Library of Congress (catálogo oficial): https://www.loc.gov/item/mm79046458/
O acervo inclui correspondências, discursos, relatórios, artigos, provas de impressão do Journal of Calendar Reform, material de publicidade, scrapbooks, recortes e fotografias. São 10 séries organizadas, incluindo arquivos da ONU (1945-1955) e material que vai de 1450 a 2001.
Bônus — livros dela digitalizados no Internet Archive:
“The World Calendar: Addresses and Occasional Papers” (1937) Internet Archive: https://archive.org/details/worldcalendaradd0000elis
.
5. Uma nação que vive sete anos no passado
A Etiópia está 7-8 anos “atrás” do calendário gregoriano e não tem nenhuma intenção de nos alcançar.
É o único país africano que nunca foi colonizado.
O calendário etíope tem 12 meses de exatamente 30 dias cada, mais um 13º mês chamado Pagumē, do grego “dias adicionados”, ou “os dias esquecidos”. São 5 dias (6 em anos bissextos) onde o tempo parece suspenso. Os etíopes acreditam que Cristo pode voltar durante esses dias liminares. Se chover no terceiro dia de Pagumē, a água é considerada sagrada e crianças se banham nela para receber bênçãos.
A contagem de anos difere por causa de cálculos alternativos da data de nascimento de Jesus, derivados do monge alexandrino Panodoros, do século 5. De setembro a dezembro, a Etiópia está 7 anos atrás do Gregoriano; de janeiro a agosto, 8 anos. Quando o resto do mundo celebrou a virada do milênio em 1º de janeiro de 2000, a Etiópia estava entrando em 1992.
O Ano Novo etíope, Enkutatash (”presente de joias”), chega em 11 de setembro do gregoriano, quando termina a estação de chuvas e flores amarelas chamadas Adey Abeba cobrem as montanhas. Meninas vestidas de branco vão de porta em porta cantando com tambores de mão; meninos entregam pinturas de flores e santos. O slogan turístico do país foi, por 50 anos, “13 meses de sol”.
A Etiópia também divide o dia de outra forma. Como fica perto do Equador, com dias e noites consistentes de 12 horas o ano todo, fez mais sentido começar a contar o tempo ao nascer do sol. O que o mundo gregoriano chama de 7:00 da manhã é “1 hora” no horário etíope. Turistas marcam reuniões às 6 da tarde e chegam ao meio-dia. Empresários aprendem a perguntar: “Horário habesha ou horário ferenji (estrangeiro)?”
Celulares na Etiópia mostram os dois calendários simultaneamente. A persistência desse sistema demonstra que calendários alternativos podem sobreviver dado investimento cultural suficiente e independência política. O tempo, afinal, é uma escolha. A Etiópia escolheu o seu.
6. O caminho dos céus e o tempo brasileiro
E o Brasil? Temos nossa própria forma de medir o tempo, e é a mais linda.
O calendário tupi-guarani tem 365 dias e um quarto, sem precisar de ano bissexto. O ano começa quando as Plêiades, o aglomerado de estrelas que os Tupi chamam de Eixu (Vespeiro) e os Guarani de Sete Estrelo, aparecem no horizonte leste, pouco antes do nascer do sol. Isso acontece entre 5 e 11 de junho.
Cada mês começa com o primeiro “filete” de lua nova. A palavra Ara significa lua e mês ao mesmo tempo, porque são a mesma coisa. O ano se divide em dois tempos: Ara Pyau (tempo novo, primavera e verão) e Ara Ymã (tempo velho, outono e inverno).
As constelações tupi-guarani são únicas. Enquanto a astronomia europeia desenha figuras ligando estrelas, os povos originários do Brasil olhavam para as manchas claras e escuras da Via Láctea, que chamavam de Caminho da Anta. As constelações indígenas são feitas de vazio tanto quanto de luz. São mais fáceis de enxergar, na verdade. Você não precisa imaginar linhas entre pontos distantes. As formas já estão lá, pintadas no céu.
Quatro constelações marcam as quatro estações:
A Anta do Norte (Tapi’i) aparece em setembro, anunciando a primavera.
O Homem Velho (Tuya’i) surge em dezembro, trazendo o verão.
O Veado (Guaxu) chega em março, marcando o outono.
E a Ema (Guyra Nhandu) aparece em junho, inaugurando o inverno. Essa é a mais importante. A Ema está tentando devorar dois ovos grandes que ficam perto do seu bico: são as estrelas Alfa e Beta Centauri. Mas a cabeça dela é segurada pelo Cruzeiro do Sul. Se o Cruzeiro soltar, a Ema beberá toda a água da Terra.
O astrônomo Germano Afonso, que passou décadas pesquisando com pajés de todas as regiões do Brasil, descobriu que etnias separadas por milhares de quilômetros e centenas de anos compartilham o mesmo sistema astronômico.
Os Guarani Mbya ainda celebram a passagem do Ara Ymã para o Ara Pyau em agosto, com rituais onde o fogo é mantido aceso a noite toda e as crianças recebem nomes sagrados. Eles nunca plantam nem cortam árvores na lua nova, porque os animais ficam agitados, e sabem exatamente que tipo de peixe vão pescar dependendo da fase lunar.
No rio Tiquié, no noroeste amazônico, os povos indígenas dividem o ano não em meses, mas em enchentes. O ano começa com a Enchente de Jararaca, no início de novembro. Cada estação é identificada pela passagem de constelações associadas a processos ecológicos: quando certos peixes sobem o rio, ou frutas amadurecem.
O padre francês Claude d’Abbeville registrou em 1614 mais de 30 constelações conhecidas pelos Tupinambá. Algumas etnias brasileiras identificam mais de 100, mais que as 88 constelações oficiais da União Astronômica Internacional. A Via Láctea sozinha contém dezenas de figuras: o Bebedouro da Anta na Grande Nuvem de Magalhães, o Bebedouro do Porco-do-Mato na Pequena Nuvem, a Cobra (Mboi Tatá, o boitatá) no Escorpião.
O que se perdeu foi um sistema sofisticado de leitura do mundo onde céu e terra não estavam separados, onde saber a hora certa de plantar era tão espiritual quanto prático, onde as histórias das estrelas ensinavam ética às crianças.
Janeiro não existia. Existia o tempo em que o Homem Velho aparece inteiro no céu e você sabe que pode engravidar sem medo, porque seu filho não vai nascer no inverno.
7. Os dois anos novos que estruturam a vida chinesa
A China moderna roda em dois calendários simultaneamente e a coexistência funciona.
O calendário gregoriano (公历, gongli, “calendário público”) governa trabalho, escola, governo e negócios internacionais. O calendário lunissolar tradicional (农历, nongli, “calendário agrícola”) governa festivais, casamentos, funerais e vida espiritual. Noticiários estatais anunciam ambas as datas diariamente. A maioria dos calendários impressos e apps de celular os exibe lado a lado.
Em 17 de fevereiro de 2026, começa o Ano do Cavalo de Fogo (丙午年) pela primeira vez desde 1966.
O zodíaco chinês opera em ciclos de 60 anos, combinando 12 animais com 5 elementos (madeira, fogo, terra, metal, água). O cavalo representa força, velocidade, liberdade e perseverança. Quando fundido com o elemento fogo, essas características se intensificam: é um ano que favorece ação ousada, criatividade, avanços rápidos, mas exige equilíbrio. Um provérbio japonês adverte: kouma no asagake (o galope matinal do potro): não saia em disparada no início do ano só para colapsar antes de chegar ao fim.
Mas o próprio fato de que se escreve sobre isso mostra que o calendário não é só medição do tempo. É um sistema de significados que pode alterar comportamentos reais, criar ou destruir vidas, deformar a pirâmide demográfica de uma nação.
O feriado oficial dura 7 dias, mas fábricas começam a desacelerar 2-4 semanas antes e não alcançam capacidade total até meados de março. O Festival da Primavera dispara chunyun, a maior migração humana anual na Terra, com 300+ milhões de trabalhadores viajando para casa. Mais de um terço dos trabalhadores de fábrica pode não retornar aos empregos anteriores depois do feriado. Negócios internacionais precisam planejar pedidos com 3-4 meses de antecedência.
O cálculo de idade revela a profundidade da dualidade calendárica. Idade oficial chinesa (shísùi) segue o calendário gregoriano. Idade tradicional (xūsuì) conta o bebê como tendo 1 ano de idade ao nascer, com todos ganhando um ano no Ano Novo Chinês em vez de no aniversário. Um bebê nascido no 12º mês lunar poderia ter “2 anos de idade” em semanas após o nascimento. Todo mundo faz aniversário junto. A data em que você veio ao mundo importa menos do que o ciclo em que você está inserido.
8. Feliz ano novo
Passamos por fábricas com 13 meses, domingos abolidos, revoluções que devoraram seus criadores, impérios que nunca foram colonizados, constelações feitas de escuridão, e 300 milhões de pessoas voltando pra casa ao mesmo tempo.
O que une tudo isso é que nenhum desses sistemas está errado. Cada um deles é uma tentativa de responder a mesma pergunta: como a gente organiza a vida juntos?
O calendário gregoriano virou padrão porque veio junto com o poder que se espalhou pelo mundo. A Etiópia resistiu porque nunca foi dominada. A China manteve dois sistemas porque entendeu que trabalho e espírito pedem tempos diferentes. Os Tupi-Guarani leram o céu de um jeito que nós desaprendemos.
Talvez o jeito que a gente marque o tempo seja um reflexo de como a gente sente o mundo. De quanto espaço a gente dá pro descanso, pra celebração, pro sagrado. De quem a gente inclui quando diz “nós”.
Eu continuo adorando o primeiro de janeiro. Adoro o combinado coletivo, os abraços, as promessas que a gente faz sabendo que vai quebrar metade. Mas agora eu sei que esse combinado é só um entre muitos possíveis. E que eu posso, sim, fazer aniversário em novembro se eu quiser. (eu vou fazer, anotem).
Porque tempo é, no fim, tudo o que a gente tem. O que a gente faz com ele é escolha.
Fiz uma ferramenta pra você ver o dia de hoje em oito calendários diferentes ao mesmo tempo. Escolhe uma data qualquer: seu aniversário, o dia que você se formou, o dia que seu filho nasceu. Veja em que lua os Guarani estavam, que animal regia o ano chinês, que mês poético os franceses teriam inventado.
Talvez mude um pouquinho o jeito que você olha pro tempo, ou ao menos será divertido.
👉 Acessar o Calendário Paralelo
Feliz ano novo, seja lá quando for o seu.






