O que não tem nome não existe
Como “homossexualidade,” “genocídio,” “adolescente” e “ficção” construíram a realidade
Ficção vem do latim fingere: amassar argila. Mesma raiz de figure, figment, feign, effigy. Todas essas palavras nasceram do gesto de mãos no barro.
Em 1868, um jornalista escreveu a palavra Homosexualität numa carta e fez desejo virar identidade, reorganizando a medicina e a cultura pelos 150 anos que seguiriam. Nos anos 1940, alguém escreveu teenager num jornal e um grupo consumidor de US$ 750 milhões surgiu do nada. A mesma coisa aconteceu com a ficção, só que essa levou 50 mil anos até alguém dar nome ao que humanos estavam fazendo desde as cavernas.
Quando uma palavra surge, o mundo se reorganiza ao redor dela.
A newsletter dessa semana percorre do perspectivismo amazônico à filosofia austríaca, da sexologia do século XIX à gíria do TikTok, pra mostrar como a palavra é a tecnologia mais essencial e maluca que a gente já inventou, e por que a história da palavra “ficção” é a prova mais irônica disso.
(E o mais legal é que você está lendo isso tudo através da palavra. Iconic.)
Mas tem base isso, pô?
Tem muita base. Bora a elas:
Benjamin Lee Whorf era inspetor de incêndios em Connecticut quando percebeu que trabalhadores tinham jogado cigarro perto de tambores de gasolina rotulados como “vazios.” A palavra “vazio” implicava “sem perigo,” só que os recipientes estavam cheios de vapores explosivos. Esse episódio o levou à ideia de que as palavras moldam o que somos capazes de pensar. Depois dele, a ideia foi ganhando camadas: Ludwig Wittgenstein, John L. Austin, Judith Butler, Michel Foucault, todos, de ângulos diferentes, chegaram na mesma conclusão de que palavras criam coisas como casamentos, inauguram gêneros e inventam agrupamentos de pessoas.
Mas foi George Lakoff que mostrou que o mecanismo opera em cada frase que a gente diz, muito além da categorização. Pra Lakoff, as metáforas são o modo como o pensamento funciona. Ao dizer, por exemplo, que argumento é guerra, falamos em atacar posições e vencer discussões. Isso reflete o nosso jeito de pensar sobre os debates na nossa cultura. E se fosse uma dança? Com duas pessoas tentando encontrar um ritmo juntas, “vencer” não faria sentido. A metáfora muda a forma como abordamos a experiência.
Lera Boroditsky levou essa ideia pro laboratório. Os Kuuk Thaayorre, povo aborígene da Austrália, usam pontos cardeais pra tudo. “Tem uma formiga no seu tornozelo sudoeste.” “Empurra o copo pro nordeste.” Boroditsky colocou Kuuk Thaayorre e falantes de inglês dentro de um prédio fechado, sem referências visuais, e pediu pra apontarem o norte. Os Kuuk Thaayorre acertaram. Os falantes de inglês, não. Crianças de cinco anos sabem onde fica o norte porque a língua exige que saibam. A gente nunca desenvolveu essa capacidade porque nossas línguas nunca exigiram.
Mas tem o lado da falta. Lakoff chamou isso de hipocognição: quando a palavra não existe, a experiência fica invisível. Winston Churchill, em 1941, chamou o extermínio nazista de “um crime sem nome.” Sem nome, não tinha como legislar contra. Em 1944, Raphael Lemkin inventou “genocídio,” e o crime virou processável pela lei internacional. A experiência era a mesma antes e depois da palavra. O que mudou foi a capacidade do mundo de agir sobre ela.
O que não tem nome fica invisível por falta de linguagem.
A palavra que demorou 50 mil anos
Em julho de 2024, uma pesquisa publicada na Nature datou uma pintura rupestre em Leang Karampuang, na ilha de Sulawesi, na Indonésia, em pelo menos 51.200 anos. A cena mostra figuras interagindo com um porco. Até aí, podia ser registro de caçada, mas várias dessas figuras são teriantropos: seres meio-humanos, meio-animais que nunca existiram. Alguém, há 51 mil anos, olhou pra uma parede de caverna e decidiu pintar o que imaginava.
Isso é ficção antes de ser nomeada.
O Homem-Leão de Hohlenstein-Stadel tem cerca de 40.000 anos e é uma estatueta esculpida em marfim de mamute com corpo humano e cabeça de leão das cavernas. A mais antiga representação tridimensional de algo que não existe. Na Austrália, a história Dreamtime dos Gunditjmara sobre Budj Bim, um deus que se tornou vulcão, referencia uma erupção datada de 36.900 anos atrás. Uma narrativa oral que sobreviveu mais que todo império e toda tecnologia humana exceto a própria fala.
A escrita tem uns 5.000 anos. O romance moderno tem uns 400. A palavra “não-ficção” tem 158. Humanos fizeram ficção por pelo menos 50.000 anos sem ter uma palavra pro que estavam fazendo.
A palavra levou dois milênios de filosofia pra se formar. Os romanos chegaram perto: historia (fatos), argumentum (inventado mas plausível) e fabula (nem verdadeiro nem verossímil). Agostinho, por volta de 400 d.C., separou ficção de mentira: a essência da mentira é a intenção de enganar. Comédias e poemas são invenções feitas pra deleitar, não pra enganar. Philip Sidney cravou em 1580: “O poeta nada afirma, e portanto nunca mente.”
Mas mesmo depois de tudo isso, o leitor comum ainda achava que história realista inventada era mentira. Catherine Gallagher mostrou que no início do século XVIII, o único sinal confiável de ficção era o absurdo: dragões, tapetes voadores. Se a história fosse plausível, as pessoas assumiam que era sobre alguém real. Daniel Defoe publicou Robinson Crusoé em 1719 e insistiu que era relato verdadeiro, porque não existia outra forma de apresentar a coisa.
Antes de a literatura resolver esse problema, o direito já tinha resolvido o dele.
Ficção jurídica funciona assim: todo mundo sabe que algo é falso, mas concorda em tratá-lo como verdadeiro porque isso resolve um problema que a verdade sozinha não resolve. Os romanos já faziam isso no século I a.C. Se um estrangeiro precisava processar alguém em Roma, o pretor escrevia na fórmula legal: “trate este homem como se fosse cidadão romano.” Todo mundo no tribunal sabia que ele não era, mas a ficção permitia que a justiça funcionasse.
Fictio est contra veritatem, sed pro veritate habetur. “Ficção é contra a verdade, mas é tida como verdade.”
Parece coisa antiga, mas você vive cercado de ficções jurídicas. Uma empresa é uma ficção jurídica. A Peugeot não é seus carros, nem seu prédio. É uma história que todo mundo concordou em tratar como real. Dinheiro é ficção jurídica. Nações são ficções jurídicas. O Brasil existe porque milhões de pessoas concordam que existe.
O direito descobriu, séculos antes da literatura, que uma sociedade inteira pode combinar de tratar algo falso como verdadeiro e extrair consequências absolutamente reais disso.
Quando a palavra “ficção” se consolidou como categoria literária, entre os séculos XVII e XVIII, ela fez algo parecido. Criou um espaço mental que antes não existia: a possibilidade de se entregar a uma história sabendo que ela é inventada. Antes dela, você acreditava ou chamava de mentira. Depois dela, um romance podia dizer “isso aqui é inventado” e o leitor respondia “ótimo, me conta mais.”
É verdade que as pessoas já faziam ficção antes. Então o que muda?
Muda a relação.
Antes da palavra, não tinha como sinalizar “isso é invenção e tá tudo bem” sem que virasse acusação de mentira. Não tinha como ensinar ficção, criticar ficção, vender ficção, separar ficção em prateleira própria. Cada uma dessas coisas exige a categoria. E a categoria é a palavra.
A ironia é que a palavra que usamos pra designar coisas que “não são reais” é uma das maiores construtoras de realidade da história humana. Reorganizou bibliotecas, criou indústrias inteiras e tornou possível a operação mental sem a qual a vida moderna não funciona: habitar mundos que sabemos serem falsos e extrair deles coisas verdadeiras.
A palavra pra “coisas inventadas” construiu uma realidade. A palavra que veio de “amassar argila” moldou o mundo.
E isso seria curiosidade de etimologista, se não se repetisse obsessivamente.
O padrão
Karl-Maria Kertbeny era um jornalista austro-húngaro que tinha um colega jovem, chantageado por sua sexualidade, que se matou. Em 6 de maio de 1868, numa carta privada, Kertbeny escreveu pela primeira vez a palavra Homosexualität. Ele queria defender direitos e parasse de criminalizar desejo.
A palavra fez outra coisa além do que ele pretendia.
Antes dela, sodomia era um ato que qualquer pessoa podia cometer. Depois dela, homossexualidade virou uma identidade. A psiquiatria adotou o termo e o patologizou. Michel Foucault descreveu: “O sodomita fora uma aberração temporária; o homossexual era agora uma espécie.” A palavra deu visibilidade a uma experiência que antes não tinha nome, mas isso veio junto com um enquadramento médico que tratou essa experiência como doença.
E aí aconteceu a virada que se repete em quase todos os casos: a comunidade LGBTQIAP+ pegou exatamente esse vocabulário e transformou em bandeira. A mesma palavra que enquadrou forneceu a linguagem pra se libertar do enquadramento.
“Adolescente” não existia antes dos anos 1940. Pessoas de 13 a 19 eram crianças ou adultos pequenos. Antes disso, casamento aos 15 era normal. A palavra criou um grupo social, e o grupo social criou um mercado: em 1944, a juventude americana já movimentava US$ 750 milhões. A revista Seventeen foi lançada no mesmo ano pra servir esse público que, até a palavra surgir, simplesmente não existia como categoria. De um lado, adolescentes ganharam identidade própria, cultura própria, voz. Do outro, viraram segmento de consumo antes mesmo de terem acabado de se entender como grupo.
“TEPT” não existia antes de 1980. Os Estados Unidos mandaram 2,7 milhões de pessoas pro Vietnã. Centenas de milhares voltaram destruídas. Durante toda a guerra, a psiquiatria americana não tinha nome pra aquilo. Sem nome, era “fraqueza.” Veteranos e feministas (que reconheceram o mesmo sofrimento em sobreviventes de estupro) pressionaram durante anos até que “Transtorno de Estresse Pós-Traumático” entrou no manual psiquiátrico.
“Racismo” foi usado pela primeira vez em inglês, em 1902, por Richard Henry Pratt, o mesmo homem que cunhou “mate o índio, salve o homem” defendendo assimilação forçada de nativos americanos. A palavra que nomeou a opressão racial foi inaugurada por alguém que a praticava. O nome criou um alvo que podia ser denunciado e combatido coletivamente. Mas ao fixar “racismo” como categoria nomeável, também permitiu que a sociedade o tratasse como exceção (”isso é racismo, aquilo não é”) em vez de reconhecê-lo como estrutura.
Toda palavra que reorganiza o mundo dá visibilidade e enquadra ao mesmo tempo. As palavras escapam de quem as cria.
Até aqui, porém, a história toda é europeia.
O capítulo brasileiro
O Brasil fez outra coisa. Em vez de teorizar sobre o poder da linguagem, praticou.
Oswald de Andrade escreveu no Manifesto Antropófago de 1928 a frase mais famosa do modernismo brasileiro: “Tupi or not Tupi, that is the question.” Uma frase em inglês dentro de um texto em português que cita Shakespeare pra celebrar a cultura tupi. A frase faz aquilo que descreve. Devora o colonizador e o que sai é outra coisa. Quando Caetano Veloso disse nos anos 1960 que os tropicalistas estavam “comendo os Beatles e Jimi Hendrix,” era método.
Lélia Gonzalez fez algo parecido com o próprio idioma. Cunhou pretuguês (preto + português) e renomeou a língua que 200 milhões de pessoas falam. Aquilo que a elite descartava como “erro” (”Framengo” por “Flamengo,” “cê” por “você,” o corte do “r” nos infinitivos) são marcas de línguas africanas. A mãe preta, mulher negra que amamentava e criava as crianças brancas da casa-grande, falava português com a fonética das línguas que trouxe da África. Essas crianças cresceram falando assim. O português brasileiro inteiro carrega essas marcas, mas até Gonzalez dar nome a isso, era invisível. A palavra “pretuguês” transformou o modo como brasileiros entendem a própria língua. Angela Davis, visitando o Brasil em 2019: “Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês aprendem comigo.”
Eduardo Viveiros de Castro levou a coisa pro limite. O perspectivismo ameríndio dissolve a separação entre “palavra” e “realidade” que sustenta toda a tradição europeia. O exemplo: quando uma onça vê sangue e chama de “cauim” (cerveja de mandioca), isso não é metáfora. Do ponto de vista do corpo da onça, sangue é cauim. Não é interpretação. É que o corpo da onça produz um mundo onde aquilo é cauim. Nomear, nessa cosmologia, não é representar. É produzir realidade. Enquanto a Europa debatia se palavras influenciam ou determinam pensamento, povos amazônicos operavam numa ontologia onde essa distinção nem faz sentido.
Paulo Freire transformou isso em política. “Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo.” Ele estava no Nordeste ensinando camponeses a ler e escrever e percebeu que quando uma pessoa que nunca teve acesso à escrita aprende a escrever o próprio nome, muda a relação dessa pessoa com o mundo. Passa de objeto nomeado por outros a sujeito que nomeia.
Enquanto Wittgenstein e Austin estavam em Cambridge teorizando sobre como palavras constroem realidade, Freire estava ensinando camponeses a escrever os próprios nomes, Gonzalez estava renomeando a língua inteira, e Oswald já tinha proposto que a forma brasileira de lidar com o poder da linguagem é devorando tudo.
E agora?
Se os exemplos históricos mostram palavras criando categorias ao longo de décadas, o que está acontecendo agora é o mesmo processo em velocidade absurda. “Gaslighting” levou 78 anos pra viajar de uma peça de teatro ao uso mainstream. “Vibe coding” foi de um tweet à Palavra do Ano em menos de dez meses.
“Enshittification,” cunhada por Cory Doctorow em 2022, deu a milhões de pessoas a palavra pra uma experiência que não conseguiam articular: a decadência das plataformas digitais.
E a cultura digital brasileira encena a antropofagia de Oswald ao vivo. Palavras em inglês são devoradas e transformadas: stalkear, shippar, flopar, hitar. Neologismos que só existem em português brasileiro: lacrar, textão, biscoitar são deglutições.
Krenak disse que adiar o fim do mundo é sempre poder contar mais uma história.
O que a história da palavra ficção acrescenta é que contar uma história é sempre dar um nome a algo que antes não tinha nenhum. E ao nomeá-lo, trazê-lo à existência.
Cada post que você publica, cada narrativa que constrói sobre sua vida, cada persona que performa no trabalho, cada “textão” no Instagram, cada vez que chama alguém de “delulu” ou algo de “cringe,” é um ato de fingere, de moldar argila.
Se ficção é o que fazemos desde que somos humanos, então que mundo estamos moldando com as palavras que estamos inventando agora




Texto incrível! Adorei a reflexão
Obrigada pela reflexão!!