Pare de podar suas esquisitices
Porque suas partes mais estranhas são as mais férteis
Julian Barnes abre Altos Voos e Quedas Livres com uma frase que eu repito sempre por aí: “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes e o mundo se transforma.” Ele fala de Félix Nadar, fotógrafo francês do século XIX que decidiu subir num balão de ar quente carregando uma câmera. Até então a fotografia era uma coisa, o balonismo outra, e as duas pertenciam a universos com públicos e lógicas separados. Nadar inventou a fotografia aérea, que hoje parece que sempre esteve ali, mas que mudou para sempre a forma como a gente vê a Terra.
Fico pensando no que os contemporâneos dele devem ter achado dessa pataquada na época, uma vibe meio “escolhe uma coisa, bicho” ou “qual é a sua, afinal?”. Hoje em dia o discurso seria esse também, mas embalado na marca pessoal.
Essa edição vem humildemente te lembrar que esse conselho de ficar com uma coisa só tá errado (se você quer ser criativo e original de verdade. Se não vai lá que ta certo sim bj).
O mito do criativo coerente
Exatamente agora logo ali no LinkedIn deve ter uma vaga em qualquer agência de publicidade dizendo “Redator pleno”. O campo de cargo do LinkedIn aceita uma linha, a headline 220 caracteres. Festival de criatividade funciona assim também. Você inscreve em Film, Design, [insira categorias mil], e o júri de cada uma delas julga a peça pelo critério daquela caixa específica, o que na prática significa que uma ideia que atravessa quatro territórios precisa se disfarçar de uma coisa só pra concorrer (e várias vezes o que acontece é que ela vai lá e se disfarça de 4 coisas mesmo e ganha 4 prêmios em 4 coisas como se fossem 4 coisas diferentes, é isso ai.)
Na arte, você pode ser ceramista e pintora, mas vai ter que eleger o meio protagonista e ainda vai precisar de uma tese que caiba num release. Na literatura, não me invente de escrever ficção científica e depois ir pra poesia numa boa, não.
Tudo conspira para que a gente vire uma versão limpa e legível de si mesmo. O que é bem curioso, porque vamo lá, se você entra num museu do Picasso e percorre a obra inteira do divo, vai contar quantas fases e quantos meios ele empilhou numa vida só. Mesma coisa com Bowie e de quase todo e qualquer “gênio”. Quando a gente olha pra obra depois que a pessoa morreu, fica óbvio que ninguém foi uma coisa só e que criatividade é feita de empilhamentos nada óbvios e surtos de colisão.
Eu até entendo a lógica das caixinhas, confesso. Marca pessoal clara facilita a vida de quem te contrata e de quem te compra.
Mas o que acontece quando essa necessidade de clareza vira gaiola? A gente corta as partes mais estranhas de si mesmo, aquelas que não cabem no pitch de elevador nem na bio do Instagram. E justamente essas partes, as que a gente poda em nome da legibilidade, costumam ser as mais férteis.
Michael Jackson não escolheu
Assisti à cinebiografia do Michael Jackson esse fim de semana, e uma parte ficou na minha cabeça, que é a construção de Thriller.
Em 1983, o cara mais popular do planeta decidiu fazer um clipe que fosse um filme de terror de verdade, com prostética e transformação acontecendo na frente da câmera. Chamou John Landis pra dirigir, que tinha acabado de fazer Um Lobisomem Americano em Londres. Trouxe Rick Baker, o maquiador que tinha ganhado o primeiro Oscar de maquiagem da história justamente por transformar um ator em lobisomem. Colocou Vincent Price, ator de horror dos anos 50 e 60, gargalhando um monólogo macabro no meio de uma faixa pop. Pediu ao Michael Peters uma coreografia em que zumbis dançam em sincronia e entregou catorze minutos, numa época em que clipe era formato de no máximo três.
Cada peça vinha de um universo que não conversava com os outros. Terror era gênero B, considerado menor, coisa de adolescente em drive-in. Coreografia sincronizada era linguagem de teatro musical. Videoclipe era material promocional descartável que gravadora fazia de má vontade. Michael pegou tudo isso e empilhou.
No mesmo disco ele repetiu a dose em Beat It, chamando Eddie Van Halen pra gravar o solo. Um guitarrista de hard rock branco tocando no disco de um artista negro de R&B, num momento em que rádio e MTV operavam com uma segregação de gênero musical que era, na prática, uma segregação racial. A colisão foi tão eficiente que ela própria virou a porta de entrada.
Nada ali era invenção do zero se vista de forma isolada. O que não existia era aquilo tudo dentro da mesma cabeça, ao mesmo tempo. Se o Michael tivesse seguido o conselho de escolher uma coisa, teria feito um disco de soul muito bom e a gente não estaria falando dele quarenta anos depois.
Quer mais um exemplo? temos. Aqui no BR, um grupo de músicos marchou pelas ruas de São Paulo protestando contra a guitarra elétrica na música brasileira. Elis Regina liderou o rolê, e o Gilberto Gil esteve presente, apesar de ele em si não ser um hater (dizem que tava lá só pra ser educado com a amiga). Poucos meses depois, no festival da Record, Gil subiu no palco com Os Mutantes e eis que “Domingo no Parque” tem berimbau e guitarra na mesma faixa, e Tropicália inteira saiu dali. A vaia e a repúdia que os tropicalistas levaram nos festivais é a prova de que aquilo colidia de verdade.
“Multidisciplinar” é também o que gente medíocre fala quando não é boa em nada de verdade.
Vamo lá que tem um cuidado a ser tomado. Dá sim pra você colecionar interesses de forma rasa, como se fossem abas no mozilla firefox, e no fim não conseguir se comprometer com nenhum de forma verdadeira. É normal experimentar coisas e largar umas, o negócio é achar as certeiras pra investir.
O lance é que é preciso saber a diferença entre ser só um perdido de ser intencionalmente curioso e comprometido com profundidade em diferentes campos que se somam e constroem algo único. Michael Jackson dançava desde os cinco anos em nível que ninguém no planeta alcançava, conhecia cinema de horror a fundo o suficiente pra saber quem precisava chamar pra fazer seu clipe.
Empilhamento com profundidade é o que produz obra original, é isso. A régua é sobre o número de mundos que você consegue co-habitar a ponto de entender o que está fazendo ACIMA da média.
Agora vou botar o meu na reta também, né.
Eu estudo fungos (pois é, e é sério, e isso já tem uns bons anos). Me fascina como organismos tão antigos resolvem problemas contemporâneos com uma complexidade ridícula. O micélio, a rede subterrânea que conecta árvores inteiras numa floresta, opera uma cooperação lacrosa onde árvores velhas transferem nutrientes pras jovens, as saudáveis alimentam as fracas, e a rede toda ganha porque nenhum nó é abandonado. No mundo fúngico, não existe o conceito de indivíduo. “Indivíduo” é só um negócio que os humanos deliraram.
Videogame me deu o mesmo tipo de treino por outra porta. Jogo narrativo longo, RPG, aqueles de 80 horas com história que se ramifica, ensina sobre estrutura o que nenhum curso de storytelling me ensinou: como loops de micro-recompensa sustentam arcos longos, como fazer alguém sentir que suas escolhas importam mesmo quando o trilho é mais rígido do que parece.
LOGO,
Anos atrás, quando tive meu próprio negócio com a belíssima sócia Ana Mohallem, foi muito natural chamar ele de Galápagos.ooo (um estúdio que conectava talentos pra resolver problemas), e que funcionava assim:
1. estrutura de rede ao invés de pirâmide. O centro da rede era o trabalho a ser resolvido, e as pessoas ao redor eram as capazes de, juntas, tratarem daquele problema.
2. espaço pra que o projeto se auto-organizasse de acordo com o caminho que ele ia tomando.
3. Avaliação pela qualidade da conexão
Isso só foi possível porque eu tinha referência séria e profunda de outros lugares que não tinham nada a ver (aparentemente, mas que se empilharam). Há dois anos atrás, fiz o curso “O processo criativo” do Charles Watson, lá no Rio. E, passando por aulas e aulas de investigação sobre como a criatividade funciona pra diferentes pessoas, essa foi a maior síntese da parada.
É sim juntar coisas que nunca foram juntadas antes. É só isso, só que é isso com profundidade. E é por isso que é tão difícil e zero banal, especialmente quando falamos de um mundo que a gente é atravessado por um milhão de assuntos ao mesmo tempo, onde temos acesso a tudo, mas pouco tempo para permanecer (e empregos que cobram especialidade).
Cartografia de Obsessões
Tolerar a própria bagunça ainda é tratá-la como defeito administrável. A gente precisa de orgulho aqui, de colocar o empilhamento na frente como proposta de existência criativa.
Porque a próxima ideia que vai transformar uma campanha, um produto, uma arte, um filme, ou uma marca vem de quem juntou coisas que nunca foram juntadas antes. E ninguém junta duas coisas que nunca foram juntadas antes estando com vergonha de uma delas.
Então aqui está o pedido para você parar de podar suas esquisitices. Deixa disso de tratar seus interesses aleatórios como hobby separado do que você é. Trate como matéria-prima, como território de colisão, tente entender como ele te abastece o todo.
Um bom criativo é um explorador, testa muita coisa de raspão. Você vai passar por assunto que não gruda, vai comprar livro que não termina, fazer curso de três meses de uma coisa que nunca mais tocou na vida. Lembre-se que isso está certo porque explorar exige superfície.
E de vez em quando alguma coisa gruda de um jeito diferente. Você percebe porque ela volta sozinha, sem agenda. Essas merecem um mapa.
CHEGAMOS AO MOMENTO DO FRAMEWORK. BORA LÁ
Desenha um círculo com você no meio. Em volta, quatro camadas. (se quiser a versão digital, tem aqui também né more)
NÚCLEO. O que você estudaria pelo resto da vida sem ninguém pedir e sem receber por isso. Pode ser QUALQUER COISA. Pode ser a cor azul,ou yorkshire terrier. Pode ser a pergunta “o que é a vida?”. Busque no máximo quatro dessas. Se você listou nove, tem coisa de órbita se passando por núcleo.
ÓRBITA. Assuntos que você frequenta há anos, com profundidade acumulada, mas que não te acordam de madrugada. Sustentam o núcleo, dão vocabulário, entram como materia de apoio.
FRONTEIRA. O que você está testando agora e ainda não sabe se fica. É a camada mais viva e a que mais gente esconde, porque é onde você é iniciante em público.
CASCA. O que passou por você e seguiu. Aquele ano de fotografia analógica, os quatro meses de xadrez. Vale registrar em vez de descartar, porque casca vira repertório mesmo quando sem prática, e às vezes volta.
Agora quatro regras de uso.
A profundidade não se distribui por igual, e não deveria mesmo. Você aprofunda no núcleo e transita no resto.
O teste de núcleo é o mesmo que eu usei no Michael lá em cima: para cada item, você consegue nomear o que ali é difícil? Quem só sabe o que é bonito ainda está na órbita.
As camadas se mexem. O que hoje é fronteira pode ser núcleo em dois anos, e o núcleo pode esfriar sem aviso. Refaz o mapa de tempos em tempos.
E a regra que interessa mesmo: o seu cargo não aparece em lugar nenhum desse desenho, não tem camada para ele. Cargo é onde você passa as horas, e a cartografia é de onde vai a sua atenção quando ninguém está pedindo nada. Quando as duas coisas coincidem um pouco, ótimo, aproveita. Quando não, o mapa continua valendo, e ele é seu independentemente de quem assina a sua carteira de trabalho.
Você vai continuar precisando de bio e de resposta curta para “o que você faz”. Tudo bem, isso é só infraestrutura social. Só não acredite nela como um fim, ok? Blz, combinados assim então.




🎯👏👏👏
Apenas para dizer que estou amando a sua news.
Beijos!!!