Streaks não salvam ninguém
Como a obsessão com consistência nos ensinou tudo sobre criar hábitos e nada sobre recomeçar
Algumas pessoas tem me perguntado como eu tô dando conta de escrever aqui e levar um trabalho como VP de produto na Mutato, trabalhando em ritmo de agência no coraçãozinho da publicidade brasileira.
A resposta curta é que, atualmente, escrever ficou mais fácil.
A resposta longa é toda essa edição da newsletter.
Antes de começar a Ininterrupta, eu estava convicta de que ia publicar um texto e depois sumir porque minha cabeça ia secar. A tela em branco parecia uma ameaça inevitável e, por muito tempo, isso foi o que me travou de lançar esse projeto. Falhar em público é complicado, mesmo que ninguém esteja prestando tanta atenção assim (ao menos não tanto quanto você mesmo).
Mas eis que a real é que quanto mais eu escrevo, mais fica natural continuar. As ideias seguem chegando dia após dia. Pra me ajudar com isso, acabei criando um Notion que funciona como uma composteira mental: tudo que entra ali vai decompondo no seu próprio ritmo. Uma frase solta vira observação, que vira argumento, que eventualmente vira texto, e às vezes o que parecia lixo (aquela anotação que eu nem lembrava de ter feito) é exatamente o que faltava pra outra ideia crescer. Diferente de um arquivo, a composteira transforma. Nada é desperdiçado, nem as ideias que apodrecem antes de virar texto, porque mesmo essas alimentam o que vem depois. O problema que eu tenho hoje é mais o excesso de ideia e falta de tempo pra executar tudo (e dói ter que escolher o que vai pra frente e o que vai ficar lá por sabe-se lá quanto tempo, credo).
Até parece que isso é o poder do hábito entrando em ação, né? Uma vez que você encaixa a rotina, o negócio só vai em velocidade de cruzeiro. E assim é com outras coisas, como a prática de exercício regular, ler um livro. Enfim, tudo vai muito bem até o momento que quebra.
E aí que tá: vai quebrar.
Vai quebrar.
Ninguém passa a vida inteira sem bater o dedo do pé na quina da cama, e a quina, nesse caso, costuma ser uma semana de viagem, um projeto que explodiu, um mês que simplesmente não aconteceu. Uma hora a magia acaba e você não tem como fugir desse momento. O ponto é que a gente pesa nisso como se parar fosse a maior falha de caráter do mundo, sendo que é só normal. E a culpa que vem depois, essa sim, é o que torna recomeçar difícil.
Em abril, eu fui ao México por uma semaninha emendar ali um feriado como quem não quer nada.
Foi tudo ótimo, mas quando eu voltei pra São Paulo, alguma coisa tinha quebrado. A rotina de exercícios, que até antes da viagem estava rodando bem, de repente ficou impossível. Do nada, levantar cedo parecia um esforço absurdo, a energia não estava mais lá, e toda vez que eu pensava em ir treinar eu encontrava um argumento muito convincente pra não ir.
É isso aí, uma semana foi tudo que me bastou pra desmontar o que eu tinha construído. Eu era oficialmente uma farsa. Todo mundo que já tentou criar uma rotina de qualquer coisa conhece bem esse sentimento.
O que mais me intrigou nisso foi a culpa, esse peso de não ter conseguido manter a parada. Havia um fardo emocional muito maior do que o físico em recomeçar, quase que como se eu estivesse de luto por ter falhado.
Foi lendo Adam Phillips que eu entendi o porquê disso.
O que Phillips entende e que o coach quântico não
No livro Sobre desistir, lançado pela Ubu em 2024, Phillips observa que a gente usa a mesma palavra para coisas opostas. “Desistir” pode ser usado desde o gesto de abandonar algo ruim em prol da sua saúde até o gesto de desistir da vida. O português ainda tem a elegância de ter alternativas como “abrir mão” para a renúncia ativa e consciente, mas mesmo onde os idiomas não fazem essa distinção, o sentimento de culpa é universal. Em qualquer língua, quem desiste de algo recebe interrogatório (muitas vezes de si mesmo), enquanto quem termina recebe parabéns. Phillips diz que essa confusão é uma das fontes mais cansativas de culpa contemporânea.
Porque toda escolha que você faz é também um abandono. Quando você decide virar, já está descartando a rua que ficou pra trás. Quando você aceita um emprego, está abrindo mão de todos os outros que poderiam ter acontecido. Isso é a estrutura básica da existência temporal. Pra fazer qualquer coisa na vida, a gente vai abrir mão de outra coisa.
Agora, você sabe do que está abrindo mão? Aquilo que você mantém no lugar vale o custo do que você descartou?
Philips chama de “anestesias do cotidiano” tudo que a gente preserva por inércia moral, sem nunca perguntar mais sobre aquilo. E isso inclui até mesmo hábitos, rotinas, certezas, performances de consistência que parecem estruturar a vida e que, na verdade, estão impedindo a gente de senti-la por completo. Até uma rotina de quem acorda às 5 da manhã todo dia pode ser isso.
A maior parte da literatura sobre hábito trata a inércia como um problema técnico. Atomic Habits, Huberman, BJ Fogg, todo o gênero “build a system” assume que o ser humano ideal é uma máquina de output linear, e que falhar em manter consistência é sinal de que você executou o sistema errado.
Phillips propõe que, no lugar de “como evitar desistir”, poderíamos nos perguntar: do que precisamos desistir pra nos sentir mais vivos?
A frase assume que existem coisas que a gente está mantendo e que estão nos matando aos poucos. Ele cita Macbeth, que perde o sono porque não consegue desistir de nada; Kafka, que aprendeu a nadar adulto mas guardou pra sempre a memória de quando não sabia, e por isso nunca conseguiu se sentir nadador.
Em entrevista à Folha, Phillips foi ainda mais direto, dizendo que a ideia de nunca desistir é fascista. Ele quer expor o quanto o discurso da resiliência total exige sacrifício infinito sem oferecer destino. Quem nunca para talvez esteja desistindo de algo mais importante.
“Nem que seja um pouco” também é economia da atenção
Tem um refinamento dessa lógica que parece mais gentil mas, no fundo, opera pelo mesmo mecanismo. É o microlearning, ou seja, a ideia de que fazer qualquer coisa, mesmo que brevíssima, todo dia, é sempre melhor do que não fazer, tipo cinco minutos de Duolingo ou um episódio de podcast enquanto você escova os dentes.
A promessa é de leveza. “Nem que seja um pouco” soa como alívio comparado à tirania do hábito total, mas o que esse modelo faz é transferir a pressão, não eliminá-la. Você ainda precisa aparecer todo dia, a diferença é que a dose ficou menor, e com ela, a ilusão de que o compromisso é mais fácil de honrar.
O Duolingo é o caso mais honesto dessa arquitetura porque a gamificação torna o mecanismo visível. Existe lá o streak: um contador de dias consecutivos que você alimenta cada vez que completa uma lição. Perder o streak ativa uma notificação, depois outra. Depois uma terceira com o mascote, o Duo, com cara de decepcionado. O app foi projetado para que a interrupção doa mais do que a continuidade recompensa. Isso é estratégia de retenção. O Duolingo quer que você abra o app amanhã e todo dia. A aprendizagem é só o pretexto, a presença diária é o produto.
O streak mede o quanto você não saiu. Quando você quebra o streak do Duolingo depois de noventa dias, a sensação é de perda. O microlearning resolveu a objeção de que o hábito é muito exigente, mas não tocou na questão mais funda: nenhum desses sistemas tem uma resposta para o que fazer quando a sequência quebra.
Os que pararam e ficaram grandes
A maior parte da criação humana que importa funciona em ondas, com períodos férteis seguidos de secas que parecem desperdício e, na verdade, estão fazendo trabalho invisível. Vamos de exemplos:
Clarice Lispector escrevia em ataques. Entre A Maçã no Escuro (1961) e A Paixão Segundo G.H. (1964) foram três anos de silêncio em ficção longa. Depois de Água Viva (1973), ela ficou quatro anos sem novo romance, mantendo o motor aquecido com crônicas para o Jornal do Brasil.
Lygia Clark chegou num ponto da carreira em que decidiu que sua obra não podia mais existir como objeto. Ela parou de fazer arte no sentido convencional e passou anos desenvolvendo o que chamava de “objetos relacionais” em sessões terapêuticas individuais. Hoje a gente estuda essa virada como um dos gestos mais radicais da arte brasileira.
Guimarães Rosa levou onze anos entre Grande Sertão: Veredas e o próximo livro. Nesse período trabalhou na diplomacia, concedeu poucas entrevistas, e tava lá simplesmente vivendo. A literatura estava acontecendo, mas não em formato de output.
Beyoncé lançou Lemonade em 2016 e sumiu por seis anos. Voltou em 2022 com Renaissance, que redefiniu o que significa lançar um álbum para uma geração inteira de músicos. A espera tornou o retorno um evento, e a irregularidade virou parte da linguagem dela.
O mundo de fora pode até ver a ausência e interpretar como fracasso. O que está acontecendo, quase sempre, é outra coisa. E, mais uma vez, o mundo nem se importa tanto quanto a gente imagina. Boa parte desse julgamento existe primeiro dentro da gente, na forma de uma audiência imaginária que assiste cada pausa com desaprovação.
Nem mesmo a IA é uniforme
O que a cultura da produtividade atual faz com nós humanos é exigir output constante sem respeitar as pausas. E quando você passa um curto período sem gerar nada visível, a narrativa padrão que você monta na sua cabeça é que você parou e, consequentemente, falhou. Isso tem a ver até com a forma que interagimos online, do check-in no Gymrats ao #tapago no Instagram.
O algoritmo formalizou essa exigência no mundo visível. Se você publica doze semanas seguidas e depois some duas, vai viver uma exponencial queda de alcance. Pior, quando você tenta voltar, o próprio sistema dificulta. O algoritmo pune não só a pausa, mas a retomada. Você precisa reconstruir distribuição do zero, como se nunca tivesse existido. O algoritmo foi construído para recompensar uniformidade e punir qualquer pausa, independente do que estava acontecendo por baixo. Ele pegou a lógica do coach de hábitos, automatizou, e transformou num sistema de cobrança que nunca tira férias.
E aí entra a IA como concorrente que não tem cansaço ou dias ruins. Você pode pedir um post por dia pra ela por trezentos e sessenta e cinco dias e ela vai produzir com a mesma disposição. Mas tem um detalhe importante: a IA também tem modo de treino, a diferença é que a gente nunca vê esse processo. Ele acontece em datacenters, durante meses, consumindo uma quantidade absurda de energia e recursos, longe de qualquer olhar. O que chega pra gente é só o modo inferência, a parte polida, disponível e infatigável. A gente consome o produto acabado sem nunca presenciar o esforço do processo, e isso cria uma ilusão de que a IA é puro output.
E o algoritmo usou essa ilusão pra transformar a consistência impossível da máquina num benchmark para humanos.
Volto pra composteira. As anotações mais fundas, aquelas frases soltas e perguntas sem resposta, foram quase todas escritas em períodos que pareciam improdutivos. Foi quando estava no trânsito, ou almoçando, no banho, anotando alguma coisa estranha que tinha pensado. O material precisa do tempo escuro pra decompor. Se eu tivesse forçado output linear esse tempo todo, eu provavelmente teria muito menos texto bom hoje.
A diferença entre um criador que retoma e um que não retoma quase nunca está na capacidade física de recomeçar, e está na história que ele contou sobre a pausa.
Constância é diferente de uniformidade
A inércia existe e é física. Se você para um músculo, é fato que ele atrofia. Phillips reconhece isso e eu também. A observação dele é que, em cima dessa realidade física, a gente sobrepôs uma camada moral, e a maior parte do nosso sofrimento com rotinas quebradas vem desse lugar. O fato físico, em si, é mais leve do que parece.
Constância é diferente de hábito diário. Hábito diário é a mesma coisa todo dia, na mesma quantidade, no mesmo horário. Constância é sobre a nossa capacidade de voltar, de não deixar atrofiar. Tem dia que rende mais, outros menos, alguns que simplesmente não rola. Tudo isso ainda está dentro do arco da constância.
Ao invés de ficar otimizando apps de produtividade e consistência, talvez valha a pena pensar em sistemas de recomeços mais leves. Não um novo protocolo pra não falhar, mas uma arquitetura pessoal que torna o retorno menos custoso do que a ausência. Algo que faça a volta ser menor do que o gap.
“Desistir é uma tentativa de fazer um futuro diferente.”
Phillips é psicanalista, e como todo psicanalista que leva Freud a sério, ele trabalha com a tensão entre duas forças que operam em nós o tempo todo: a pulsão de morte e a pulsão de vida. A pulsão de morte não é literalmente o desejo de morrer, mas sim a tendência a repetir e preservar o estado atual mesmo quando ele nos prejudica. A pulsão de vida é o movimento contrário: abertura, capacidade de deixar algo morrer pra que outra coisa possa nascer.
Então voltando à pergunta do início: como eu dou conta? A resposta honesta é que escrever ficou fácil porque eu tenho um hábito, sim. Mas principalmente porque desenvolvi uma capacidade de negociar com a minha própria falha e de quebrar acordos comigo mesma sem decretar que o projeto acabou.
A newsletter vai ser quinzenal até o dia em que não for. Algumas semanas eu produzo cinco rascunhos e tenho mais ideia do que espaço. Outras eu não consigo escrever uma frase que preste, mas as duas são parte do mesmo projeto. O que mudou foi a história que eu conto pra mim mesma quando a consistência quebra.
Pular uma edição é só abrir mão de uma edição. Essa distinção, que parece pequena na teoria, é enorme na prática, porque ela é a diferença entre voltar na semana seguinte com leveza e voltar carregando o peso de ter falhado.
Se quiser experimentar isso na prática, eu criei um pequeno app baseado nesse conceito que estou chamando de Streak de Retorno. Ao contrário do Duolingo, ele mede quantas vezes você voltou depois de parar. Quanto maior o número, mais vezes você caiu e se levantou. O melhor usuário do sistema é quem mais recomeçou (porque é isso, quebras vão acontecer). Acesse aqui
E talvez, como Phillips sugere, o gesto mais corajoso e menos heróico que a gente faz ao longo de uma vida seja exatamente esse de aprender a nomear o que é pausa e o que é fim, quebrando um pouco o algoritmo do mundo atual, e escolhendo, de vez em quando, a pulsão de vida em vez da manutenção do streak.






Gostei muito da sua analogia de não desistir, entender que alguns dias você irá falhar. Estou hoje, deixando de ir na academia e pensando que falhei. Ao ler seu texto, revi esse meu conceito e penso que é só uma pausa, que amanhã eu volto e que o mundo não vai acabar por um dia a menos na academia. Não preciso desistir de tudo por isso.
acredito que em tempos de coaching querendo forçar guela abaixo que precisamos ser robos, essa sua visão traz alívia e nos lembra que somos apenas humanos.
Cirúrgica 🎯