Toda tecnologia de hoje já foi “o fim do mundo” em algum momento
O mesmo roteiro de medo e manipulação que se repete da fotografia até a IA
Inglaterra, manhã de 1878. Estamos em Londres tomando um delicioso cafezinho quando avistamos um homem caminhar de forma elegante no centro da rua. O rapaz segura uma bandeira vermelha, e a balança de um lado para o outro. Alguns metros atrás dele, vem um carro. Os dois andam na velocidade máxima de 6,4km/h, não mais do que isso. O carro nunca ultrapassa o homem, afinal, ele está trabalhando… para… o próprio veículo.
Sim, balançar bandeira pra carro já foi um emprego. Imagina você botar no linkedin hoje “senior flag waver at gol bolinha 2004”
A lei da bandeira vermelha existiu por 20 anos. Ela nasceu por medo da chegada dos automóveis, e de como isso ia afetar a segurança pública das cidades. Muito curiosamente, quem ajudou a financiá-la foram os donos de ferrovias e negócios ligados a carruagens.
Na newsletter de hoje, vamos de:
1. O padrão que ninguém te contou
Cinco momentos de rupturas tecnológicas e como a história se repete toda santa vez.
2. A solução de hoje é o problema de amanhã
Toda tecnologia chega prometendo resolver um problema e acaba virando outro problema elevado à décima potência.
3. Quem está vendendo o futuro?
Como uma exposição criou o modelo que é usado até hoje para propagar e solidificar visões de futuro.
4. Os Luditas não eram burros
Separando medo genérico de crítica válida.
5. O que eu realmente penso sobre isso
É menos sobre a tecnologia em si e mais sobre a dinâmica de poder.
6. Um toolkit da resistência tecnológica
Quatro frameworks para sobreviver ao caos atual.
7. Echoes.exe
Fiz um joguinho pra refletir sobre isso e ironicamente levou somente 15 minutos e 3 prompts.
1. O padrão que ninguém te contou
Passei esse último mês dando uma bela escavada em histórias de resistência tecnológica. Essa curiosidade surgiu porque tenho muitos amigos que estão bravíssimos e resistentes ao uso de IA. Não posso sequer citar um ChatGPT perto deles que já torcem o nariz e enchem a boca pra dizer “eu não uso”, tal como fosse um “dessa droga eu não tomo”. Ou vocês conhecem alguém assim, ou você é um deles.
Eu não tenho nada com isso, cada um faz o que quer da vida, eu hein. Mas comigo, confesso que sempre tive uma relação mais voltada para abertura tecnológica: olho com curiosidade, gosto de testar novidades e me interesso em ver como as coisas funcionam. Sempre foi assim, do videogame às redes sociais. Implorei pra ser convidada pro Orkut, sabe? Sou fã de Philip K. Dick, essas coisas. Mas o ponto é que, sobre essa atual resistência com IA, comecei a ter a sensação mais geral de que “eu acho que já vi esse filme antes”.
Nessas escavações, descobri algo que deveria ser óbvio mas não é: a gente tá repetindo o mesmo roteiro a vida toda com absolutamente tudo que surge.
1859: A fotografia vai roubar sua alma
Quando a fotografia apareceu, a reação de muitos foi calorosamente péssima.
Para Baudelaire, por exemplo, a inovação era um “refúgio de todos os pintores fracassados”, ou coisa de gente narcisista que queria se ver “reproduzida no metal”.
Muitos dos pintores da época entraram em pânico, afinal, se uma máquina podia capturar a realidade, para quê serviriam os quadros?
Cada nova ferramenta não apenas substitui, mas liberta a anterior de sua função utilitária primária, permitindo que ela encontre um novo propósito ou se transforme em arte. Essa é a tese de Marshall McLuhan, e foi o que aconteceu aqui.
A fotografia não matou a pintura, mas libertou ela. Quando artistas não precisaram mais retratar a realidade fielmente, vimos nascer movimentos como o impressionismo ou até a arte abstrata.
Repare. É sempre divertido andar no museu exatamente nessa transição histórica: você ta lá passando por um monte de retrato super realista e paisagem até que BUM, um mundo de novas possibilidades se abre.
1890: A eletricidade vai te matar (e eles provaram isso eletrocutando um elefante)
Aqui a história fica mais bizarra. Thomas Edison estava perdendo a guerra comercial para Nikola Tesla. Edison vendia corrente contínua; Tesla, corrente alternada. A de Tesla era melhor e mais eficiente, e isso deixou Edison desesperado, então ele fez o que qualquer empreendedor ético faria: começar uma campanha de terror.
Ele organizou demonstrações públicas onde eletrocutava animais com corrente alternada pra provar como era perigosa. Isso aconteceu com cachorros, cavalos, e um elefante chamado Topsy. Tudo isso para provar que Tesla queria acabar com o mundo. (a corrente alternada é o que alimenta sua casa agora. Você está lendo isso graças à tecnologia que Edison disse que ia te matar.)
A verdade é que esse medo não era 100% fabricado. Normalmente essas coisas não são tiradas assim do nada, mas sim potencializadas por interesse. A infraestrutura elétrica era perigosa mesmo no início. As cidades foram tomadas de fios expostos (que eram chamados de fios da morte), instalações amadoras, e teve sim gente morrendo eletrocutada.
A diferença entre o medo legítimo e a manipulação corporativa era quase impossível de se distinguir. Só olhando pra trás a gente vê que Edison usou preocupações reais pra vender uma agenda comercial.
1910: O automóvel vai salvar o planeta
No fim do século XIX, as cidades tinham um problema sério chamado cavalos. Pense que NY tinha 200 mil cavalos produzindo, cada um, entre 15 e 20 quilos de esterco por dia. Estamos falando de montanhas literais de merda nas ruas, que atraíam moscas e espalhavam doenças. Em 1894, o Times de Londres previu que a cidade seria soterrada em esterco em 50 anos.
E nesse cenário chegou o automóvel como uma solução verde. Os primeiros entusiastas do automóvel eram ativistas ambientais da época.
Como pontuei no início desse texto, a resistência veio dos donos de cavalos, empresas de carruagem, fabricantes de chicotes e ferrovias. “Get a horse!” inclusive virou o insulto pra quem dirigia um carro quebrado na estrada.
1998: A internet é coisa de geek esquisito
A internet dos anos 90 carregava consigo uma imagem bem específica: coisa de nerd de porão e desajustado social. Uma vez, Jeff Bezos apareceu na TV pra explicar a Amazon, e o entrevistador mal conseguia esconder seu ceticismo: Quem iria querer comprar livros pela internet? Que coisa de maluco.
A tecnologia era lenta, o modem fazia um barulho infernal e ocupava a linha telefônica, e pais de todo o mundo gritavam pra gente sair do computador porque precisavam usar o telefone.
Mas claro, existiam também os medos que não eram apenas vozes da cabeça: privacidade, segurança, golpes, etc. Muito do que preocupava as pessoas ainda existe hoje em dia, só que agora ninguém cogita abandonar a internet por causa disso. A tecnologia não resolveu os problemas, mas a gente aprendeu a conviver com eles.
2025: A IA vai (insira seu medo favorito aqui)
A IA vai acabar com os empregos, destruir a arte e manipular eleições. Vamos ter deepfakes indistinguíveis da realidade. Seremos substituídos. Tem até meme falando pra gente falar “por favor” para sermos poupados quando robôs tomarem o poder.
Esses medos são válidos? Opa se sim. Eles estão sendo amplificados ou fabricados por interesses? Com certeza. Mas segura isso aí que já voltamos pra esse ponto.
2. A solução de hoje é o problema de amanhã
Internet prometia conexão com o mundo, mas entregou isolamento em bolhas.
Smartphone prometia libertação do escritório, mas virou trabalho 24/7
Redes sociais prometeram dar voz a todos, mas entregaram desinformação em escala.
O esterco dos cavalos criou mercado pros carros, a poluição dos carros criou mercado pros carros elétricos, e os carros elétricos estão criando problemas de mineração e descarte de bateria que vão criar o mercado pra próxima solução.
Com IA, existe discurso de medo por um lado, mas também a promessa de libertar a gente do trabalho repetitivo. Se o padrão se mantiver, a pergunta que devemos fazer é: “que problemas, pra quem, e quem vai vender a próxima solução?”
3. Quem está vendendo o futuro?
Aqui entra uma peça do quebra-cabeça que mudou como eu vejo tudo isso. Em 1939, aconteceu a Futurama na Feira Mundial de Nova York. Era uma exposição com uma maquete gigante mostrando o mundo de 1960, que consistia em cidades conectadas por vias expressas, carros em todo lugar, subúrbios planejados, um verdadeiro sonho americano sobre rodas.
28 milhões de pessoas visitaram essa feira.
Só que o detalhe é que a exposição foi financiada pela General Motors e por petroleiras. Ou seja, as empresas que vendiam carros e gasolina estavam mostrando pro público um futuro que, coincidentemente, precisava de mais carros e gasolina.
Norman Bel Geddes, o designer que criou a Futurama, depois virou consultor do governo. O escritor Paris Marx, no livro Road to Nowhere, traça uma linha direta entre a Futurama de 1939 e o Vale do Silício de hoje em dia:
1939:
General Motors + petroleiras
Norman Bel Geddes vira consultor do governo
“Futuro de vias expressas e subúrbios”
Financiado por quem vende carros e gasolina
2025:
Tesla + Uber + Google.
Ex executivos de Big Techs em cargos de regulação
“Futuro de carros autônomos e cidades inteligentes”
Financiado por quem vende software e baterias
Quem está no poder não pergunta “que futuro vocês querem?”. Eles vendem “o futuro que vai acontecer” e fazem você acreditar que é inevitável.
Marx escreveu algo que ficou na minha cabeça:
“Tecnologia não é o principal mobilizador para a criação de cidades e sistemas de transporte mais igualitários — isso vai requerer mudanças muito mais profundas que deem às pessoas mais poder sobre as decisões de suas comunidades.”
4. Os Luditas não eram burros
Você provavelmente já ouviu o termo “ludita” como insulto para falar de alguém que tem medo de tecnologia e que quer voltar pro passado, só que os Luditas originais não eram bem isso.
Na Inglaterra, início do século XIX, a Revolução Industrial estava destruindo o modo de vida de artesãos têxteis. As máquinas substituíam trabalhadores especializados por operadores baratos. Os Luditas eram contra a implementação das máquinas sem nenhuma proteção para os trabalhadores deslocados.
Eles pediam por taxação das fábricas pra financiar transição, treinamento pros trabalhadores deslocados, regulação do ritmo de implementação, participação nas decisões sobre automação.
É basicamente o que qualquer pessoa razoável pede hoje sobre IA, mas a resposta do governo britânico foi um pouco menos razoável na época.
Destruir máquinas virou crime punível com morte, houve execuções públicas, e o movimento foi esmagado. E aí fizeram algo mais eficiente que execução: transformaram “ludita” em insulto. Apagaram as demandas reais e criaram um espantalho do tolo que tem medo de máquinas.
5. O que eu realmente penso sobre isso
Depois de semanas escavando 150 anos de história, minha conclusão é que a gente gasta muito tempo discutindo a tecnologia, mas pouco sobre quem controla, lucra e paga pela narrativa.
A internet, por exemplo, não é o problema: o problema é um punhado de empresas decidindo o que você vê, o que você compra, o que você pensa.
O mesmo com IA. São meia dúzia de empresas concentradas em dois países decidindo como essa tecnologia vai ser implementada no mundo inteiro.
Pare de discutir “IA sim ou não”
Enquanto você debate, as decisões reais estão sendo tomadas em salas que você não foi convidado a entrar. Uma pergunta mais útil é “quem está lucrando com a mudança do mercado e o que estão fazendo com esse lucro?”
Siga o dinheiro
Toda vez que alguém te vende inevitabilidade “isso é o futuro, não tem como parar”, pergunte: quem financia essa visão do futuro?
A resistência deveria ser contra a concentração de poder
Os Luditas quebravam máquinas porque era a única linguagem que os donos das fábricas entendiam. A demanda real era por transição justa, taxação, regulação e participação nas decisões.
A cada nova tecnologia, repetimos o ciclo: Estranhamento, pânico, guerra de narrativas, fricção, coexistência, invisibilização. E aí vem a próxima tecnologia e começamos de novo.
Sabe o que nunca entra no ciclo? A redistribuição de poder.
6. Um toolkit prático para analisar a resistência tecnológica
Depois de mergulhar em 150 anos de história, trago aqui a palavra de quatro ferramentas para navegar qualquer debate sobre tecnologia. Cada uma responde uma pergunta diferente:
Framework 1 — O Ciclo (6 fases): QUANDO acontece? Identifica em qual fase da resistência estamos.
Framework 2 — As 3 esferas: QUEM está resistindo? Mapeia os atores e suas motivações reais.
Framework 3 — Mapeamento histórico: COMO se compara? Aplica as esferas às eras passadas para revelar padrões.
Framework 4 — O teste do ludita: É VÁLIDO? Checklist de 5 perguntas para distinguir crítica legítima de tecnofobia.
Use os quatro juntos para ter uma visão completa, ou pegue só o que precisar. Você pode acessar tudo em uma versão interativa feita com a ajuda visual do Claude (claudião para os íntimos) aqui: bora lá
7. Quer testar suas próprias reações?
Criei um jogo interativo onde você viaja por essas 5 eras e debate com um cético em cada uma delas. Você vai da fotografia à IA, e conversa com uma pessoa resistente de cada época.
A ironia é o jogo foi feito com IA em 15 minutos com 3 prompts usando o Google AI Studio (que é um verdadeiro lacre, por sinal) mas isso é assunto pra outra newsletter
Se você leu até aqui, vai gostar de jogar. Link aqui
Me conta depois: em qual era você teria sido o cético?






Mais um texto excelente! Adoreei e super concordo. Sempre algo novo vai parecer um problema, até que venha um problema maior 😂