Fiz um jogo sobre o óvni do interior do Paraná e entendi porque a IA ainda precisa de você
A jornada emocional de construir com inteligência artificial, contada em quatro fases e uma metáfora chamada Frankenstein.
Semana passada, passei uma tarde tentando (e acho que conseguindo) fazer um grupo de pessoas a fazer as pazes com a IA. Era uma aula que eu batizei exatamente assim, Fazer as Pazes com a IA, feita sob medida para um time de estrategistas e criativos maravilhosos. Aliás, esse foi o meu soft launch de curso/workshop, a primeira vez que fiz um desses de forma assim oficial. E eu amei a experiência de um jeito irreversível.
Estive com esse grupo que faz as coisas mais legais que vocês podem imaginar com a cultura e que, mesmo assim, estavam com aquele aperto no peito que eu reconheço de longe. Ele mesmo: o aperto de quem desconfia que o chão mudou de lugar e ninguém mandou o comunicado.
Voltando pra casa naquele dia (e eu penso melhor dirigindo, normal), me dei conta de que construir com IA tem fases, e elas são bem mais emocionais do que técnicas. Um arco que quase todo mundo percorre na mesma ordem, e com espantos em cada curva.
E aí me veio o Frankenstein como metáfora disso
Todo mundo chama o monstro de Frankenstein, mas esse é o cientista. Victor Frankenstein é o criador, a criatura em si não tem nome. Guarda esse detalhe porque vamos falar dele adiante.
Mary Shelley escreveu aquilo em 1818, com vinte e poucos anos, e sem querer entregou o manual de instruções emocional de qualquer pessoa que cria algo que ganha vida própria. É a história de um cara que dá a faísca, se apaixona pela própria capacidade de criar, e depois se apavora com o que fez. Conhece esse plot no mundo atual? Eu diria que a IA é a primeira ferramenta da nossa vida que se comporta menos como ferramenta e mais como criatura.
Pensa em tudo que a gente sempre chamou de ferramenta. Uma câmera fotográfica é um meio, tem mil jeitos de tirar uma foto, mas no fim ela faz foto e vídeo e pronto. O Photoshop edita imagem e é isso ai. Cada ferramenta que a humanidade inventou tinha um fim mais ou menos fechado, um contorno onde você sabia onde aquilo começava e terminava.
A IA chega e estoura esse contorno. Ela é um meio aberto pra fazer qualquer coisa, daí que em vez de uma ferramenta com fim definido, você ganha um canvas em branco do tamanho da sua imaginação. E é exatamente essa liberdade toda que dá o primeiro frio na barriga.
Fase 1: o medo
A primeira coisa que a IA provoca na maioria das pessoas é medo, e é em muitas camadas. Medo de estar pra trás, de não dar conta do mundo de hoje, ou de ser aquela pessoa que não entendeu a virada e ficou falando de fax enquanto todo mundo já mandava áudio.
É uma angústia bem específica, porque ela mexe também com a nossa identidade. Tem gente que construiu uma carreira inteira sendo “a pessoa que sabe fazer X”, e eis que de repente aparece uma tecnologia que parece fazer X sozinha. Você sente sumindo um pedaço de você.
E aqui o medo é até justo, porque a IA é genuinamente diferente de tudo que veio antes. Com uma câmera ou Photoshop, você sabia o tamanho do que tinha pela frente. Com a IA, a falta de contorno é tenebrosa. Quando o limite é a sua imaginação, a primeira reação honesta do corpo é travar.
Fase 2: o toque do divino
Aí, um dia, a ficha vira.
Eis que você descobre que a IA não serve só pra traduzir um e-mail ou te dar três dicas de coach genérico. Você dá uma explorada e percebe que dá pra construir sistemas com ela. Dá pra fazer solução sob medida pro seu jeito de pensar, endereçando a forma que você trabalha, e inclusive te ajudando a dar forma pra coisas que você não conseguiria sozinho. E nesse instante acontece o que eu apelidei de toque do divino, a mesma cena do Michelangelo, o dedo encostando no dedo, a faísca passando
É também o momento Victor Frankenstein. Você se sente um criador, olha pra aquele monte de ferramenta e entende que tem nas mãos a faísca da vida criativa. E aí você surta de empolgação (no bom sentido).
Foi mais ou menos assim que eu comecei, aliás. Lá numa das primeiras edições da Ininterrupta eu ensinei a fazer um joguinho simples com três prompts, o echoes.exe (que está nessa edição com todo o processo criativo passo a passo). Esse foi um dos meus primeiros toques do divino documentados. Depois daquilo eu não parei mais: fui fazendo agente, sub-agente, projeto em cima de projeto, cada coisa mais ambiciosa que a anterior. Você pega o jeito, decola, e a empolgação vira combustível.
Um dos que mais me deu prazer foi o After Hot Yoga, um joguinho de luta em pixel art ambientado numa sala de espera de hot yoga. Você escolhe entre 14 personagens (todos baseados em gente da minha vida) e briga usando copo Stanley como arma: o litrão com alça vira marreta, o copo de café vira granada arremessável, o térmico é uma adaga rapidinha, etc. Saiu tudo num arquivo HTML só, jogável direto no navegador, com aquela cara de fliperama 16-bit. Eu ria sozinha montando. Esse jogo é uma grande piada interna com um evento que aconteceu com uma amiga, e transformar ele em algo jogável foi tudo pra mim.
Tudo lindo.
Até não ser.
Fase 3: o vale da desilusão
Antes de eu te contar do meu vale, um crédito: “vale da desilusão” não é invenção minha. O termo vem do Hype Cycle, a curva que a consultoria Gartner criou nos anos 90 pra mapear o ciclo de vida de qualquer tecnologia nova. Funciona mais ou menos assim: primeiro vem um pico de expectativas infladas (todo mundo jura que a tecnologia vai resolver tudo), depois o tombo no vale da desilusão (a realidade aparece e a decepção vem junto), e só então a subida lenta rumo à maturidade, que eles chamam de ladeira da iluminação e platô de produtividade. O detalhe que me fascina é que o Hype Cycle foi desenhado pra descrever mercados inteiros, setores, a adoção de uma tecnologia pela sociedade. E o que eu fui descobrir construindo é que a mesma curva acontece dentro de uma pessoa só. Você vive, sozinho na sua mesa, o ciclo macro inteiro em miniatura.
A IA tem um efeito colateral, que é de criar a ilusão de que você não precisa de conhecimento técnico nenhum. Chega um momento da curva, você realmente acha que não precisa saber programar nada, nem entender de verdade de qualquer assunto, porque ela dá conta de resolver qualquer gap. Você fica tão embriagado de poder criativo que acredita mesmo que vai dar conta de tudo só apontando o dedo e pedindo.
E aí você esbarra em algo grande demais pro seu repertório atual. Um problema que a IA sozinha não resolve, porque você nem sabe direito o que pedir pra ela. A criatura, que até ontem era prova do seu gênio, começa a parecer um monstro.
É a cena mais triste do livro da Mary Shelley. Victor dá a vida, olha pra criatura pronta e, em vez de orgulho, sente horror e foge, abandonando ela. E todo o resto da tragédia nasce desse momento em que o criador desiste da própria criação por puro susto.
Tudo isso pra dizer que eu queria muito que você não fugisse quando essa hora chegar.
O vale da desilusão é só a parte do mapa onde quase todo mundo larga, geralmente achando que o problema é falta de talento (ou que a IA é uma porcaria rs). Quase nunca é nenhum dos dois casos, e quem atravessa esse momentinho costuma fazer do mesmo jeito, que é justamente a história que eu quero te contar agora.
O sítio, o óvni e as três tentativas
No feriado de Corpus Christi desse ano, a internet inteira estava falando do Mayk Leão. Caso você seja um ET e tenha perdido, o Mayk é um criador de conteúdo de Campo Largo, no Paraná, agropoc orgulhoso, sem camisa e com arco e flecha nas costas, que mostra a rotina do sítio e resgate de bicho (a Luisa Mell do Paraná). Eis que ele postou que tinha avistado um óvni na propriedade. E o plot foi bom e durou um dia inteiro de stories, com direito aos animais agitados olhando pro mesmo ponto, a cerca elétrica derrubada, luz estranha perto da mata, barulho de caça. Rapidamente, ele virou meme nacional e explodiu de seguidores.
Eu, que sempre quis fazer joguinho com IA e já tinha colecionado algumas tentativas frustradas pelo caminho (e outras bem sucedidas), olhei pra aquilo e pensei: é esse. Esse é o jogo.
Queria um joguinho casual, de fases rápidas, com o Mayk vivendo aquela noite. A câmera é o coração da coisa: tudo que ele faz vira conteúdo, e cada captura boa engorda o contador de seguidores, que é o placar. Três atos em dificuldade crescente, do dia pra noite. No primeiro, fácil, ele fotografa o rastro dos aviões caça no céu. No segundo, médio, o ET começa a fazer aquele estalo e ele precisa recolher os bichos (dois cavalos, galinha, ganso, bode) num lugar seguro antes que a coisa aperte. No terceiro, o mais difícil, anoitece, o óvni aparece na serra e ele tem que acertar o zoom da câmera pra capturar. Faz tudo certo, ele viraliza. Fim feliz.
Lindo no papel. Agora deixa eu te contar quantas vezes eu bati a cabeça antes de funcionar.
A primeira tentativa foi em 3D, estilo Nintendo, porque na minha cabeça era isso que ia ficar bonito. Comecei a montar com Three.js e travei rápido. O problema nem era o Three.js em si, mas sim que a arte que eu gero por IA ia precisar de muitas gerações de 3D de verdade, que ia ficar consideravelmente pesado pra um site. Meu repertório técnico tava insuficiente pra ambição que eu tinha escolhido. Vale da desilusão batendo na porta.
Segunda tentativa: recuei pra 2.5D isométrico no Phaser 3, que é o padrão de jogo 2D no navegador. Aí a arte que eu gero entrava direto como sprite e fundo, e as mecânicas todas cabiam sem dor. Melhorou muito, mas o isométrico ainda trazia uns bugs de profundidade chatos que comiam meu tempo.
Terceira tentativa, a que vingou: top-down chapado, aquela vista de cima. Mais simples, sem os bugs de profundidade, e do tamanho certo do que eu conseguia orquestrar de verdade. Foi aí que o joguinho ficou de pé.
Repara no que aconteceu: o que me fez sair da primeira pra segunda, e da segunda pra terceira, foi eu entender o terreno o suficiente pra saber onde estava o gargalo e por onde redirecionar. Sem esse mínimo de chão técnico, eu teria parado na primeira tela preta achando que IA não servia pra fazer jogo.
Fase 4: a superação (ou porque repertório é tudo)
Acho que o grande mal-entendido sobre IA é tratar ela como mágica que dispensa o humano. Pra mim acontece o contrário. Quanto mais a IA avança, mais valioso fica o que você traz de repertório, clareza e direção.
Construir com IA é, no fundo, um exercício de liderança. Você precisa de clareza acima de tudo, capacidade de orquestração e saber o que você quer. E pra saber o que você quer, com frequência você precisa conhecer minimamente o terreno que está pisando. A IA executa lindamente, mas ela executa a sua visão. Se a visão está embaçada, o resultado vem embaçado junto.
No caso dos jogos eu parto na frente, e é honesto admitir isso. Eu jogo videogame desde sempre, tenho um repertório gigante de referência, sei na pele o que faz um jogo ser gostoso de jogar. E lá na adolescência eu fui atrás de entender minimamente como se programa um jogo. Isso me dá base pra saber o que pedir e, principalmente, pra saber por onde guiar a IA quando ela trava. Onde me falta conhecimento, eu sei pelo menos que tipo de conhecimento ir buscar pra instruir ela direito.
Isso não me torna programadora, e nem precisa. Basta ter chão suficiente embaixo dos pés pra liderar a conversa em vez de só torcer pra dar certo.
O que ficou da aula
Volto pro começo, pra aquela sala.
O que mais me emocionou no fim daquele dia foi que as pessoas saíram dali com algo mais fundo do que nome de ferramenta e termo técnico (que é o que a maior parte dos cursos por aí entrega). Elas entenderam que o jeito delas de trabalhar é único, e que dá pra domar essa coisa chamada IA do jeito de cada uma. E isso não é escalável, replicável, e é valioso justamente por isso.
Porque é nisso que mora a graça toda, e é o que eu venho repetindo de várias formas por aqui: num mundo em que a máquina copia tudo que é replicável numa fração de segundo, o que sobra de precioso é exatamente o irreplicável. O seu repertório torto, suas referências esquisitas, sua maneira particular de juntar coisa que ninguém mais juntaria. A IA não apaga isso. Quando você atravessa o vale e aprende a liderar, ela amplifica.
Victor Frankenstein criou uma criatura e fugiu dela com medo. A tragédia inteira do livro cabe nesse abandono. O convite que eu te faço é o oposto: fica e descobre que a criatura não é um monstro.
Quer levar esse papo pra sua equipe?
A aula Fazer as Pazes com a IA que abre esse texto virou um workshop sob medida, e eu adoraria levar ele pra sua empresa. É construído do zero pra cada grupo, naquele jeito não escalável e não replicável que eu defendo aqui em cima, pra fazer a sua galera domar a IA como sistema ao invés de só usar pra traduzir e ajudar a escrever e-mail.
Pra saber mais, é só entrar no ininterrupta.com.
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Foda demais! Amei After the Hot Yoga, grande HIIT
Incrível como sempre! O joguinho kkkkkk tudoo!